O que é hegemonia?

O conceito de hegemonia é de suma importância para a análise e o entendimento da condução das relações entre os países. Entretanto, quando falamos de tal conceito a perspectiva que primeiro vem à mente é aquela que enfatiza o poder econômico e militar. Ou seja, comumente o conceito de hegemonia é utilizado para fazer referência a determinado país que por ter maior poder militar e econômico consegue fazer com que os demais se comportem de acordo com seus interesses. Nesse caso, a “obediência” dos países é obtida através da coerção/imposição/dominação (COX, 1993; RAMOS 2013).

Essa perspectiva é válida, porém, há outros fatores que devem ser levados em consideração para que possamos entender como um país consegue influenciar o comportamento de outros de acordo com seus próprios interesses. Portanto, cabe ressaltar que o conceito de hegemonia pressupõe a condução de uma sociedade por meio de um consenso formado em torno de determinados valores (COX, 1993; RAMOS 2013).

Em outras palavras, um país não alcança a hegemonia apenas utilizando seu poder militar, muito pelo contrário, sua liderança, interesses e valores precisam ser aceitos pelos demais e tomados como universais. Assim, serão esses valores e interesses que conduzirão as relações entre os países, além de formar e guiar as instituições (entendidas aqui como regras, leis, escolas etc) e toda a sociedade de forma geral (COX, 1993; RAMOS 2013).   

Porém, uma sociedade totalmente hegemônica, onde o poder é exercido unicamente por consenso e todos os membros concordam com todos os valores e instituições, é utópica e, portanto, podem surgir algumas forças (instituições ou outro países) questionadoras dessa hegemonia. Nesse cenário, a coerção é uma opção, mas nem sempre o uso da força é necessário em situações de hegemonia (COX, 1993; RAMOS 2013). Sendo assim, em resumo, de acordo com Cox temos que:

Hegemonia mundial é uma estrutura social, uma estrutura econômica e uma estrutura política; e não pode ser simplesmente apenas uma dessas, mas deve ser todas as três. Hegemonia mundial, além disso, é expressa em normas universais, instituições e mecanismos que colocam regras gerais de comportamento para os Estados e para aquelas forças da sociedade civil que atuam através das fronteiras nacionais (COX apud RAMOS, 2013, p.112).

A partir disso, em análise ao sistema internacional, é possível inferir que a ordem mundial vigente é baseada em uma hegemonia ocidental (liderada pelos Estados Unidos), onde os princípios ordenadores das relações são o liberalismo econômico e a democracia. Entretanto, o conceito de hegemonia interdependente vem recebendo cada vez mais atenção, principalmente após a crise financeira de 2008 que demonstrou o declínio do domínio hegemônico da ordem mundial liderada pelos Estados Unidos e o aumento expressivo da participação de potências emergentes, principalmente da China, em áreas de poder  (COX, 1993; RAMOS 2013; XING, 2016).

Sendo assim, o conceito de hegemonia interdependente parte da argumentação de que os EUA dependem cada vez mais das contribuições de potências emergentes para manutenção dos valores que estruturam as atividades no plano internacional. Ademais, pressupõe relações mútuas, ou seja, deve ser considerado em um processo dialético, entendido como uma situação em que os defensores dos valores dominantes vigentes e as potências emergentes interagem constantemente moldando e remoldando a ordem mundial, enfrentando desafios, necessidades e restrições mútuas (XING, 2016).

Dessa forma, a hegemonia interdependente resulta em um contrapeso à hegemonia de um só país ou civilização cultural (ocidente), conduzindo a um cenário marcado por normas e valores mais flexíveis, interdependentes e menos universais. Além disso, resulta também em alianças entre as potências emergentes, dando a elas a possibilidade de conquistarem uma posição de maior visibilidade e reconhecimento no nível internacional, além de poderem propor seus interesses e valores (XING, 2016).

Portanto, o conceito de hegemonia interdependente resulta em um novo tipo de hegemonia, estabelecendo uma relação de interdependência entre os poderes estabelecidos (EUA, por exemplo) e os emergentes (como a China), se afastando das relações tradicionais de dependência dos países do Sul em relação aos do Norte. Portanto, tal conceito se mostra como uma opção importante a ser considerada para a análise e compreensão de uma ordem mundial em transformação (XING, 2016).

 

Referências

 

COX, Robert W. Gramsci, materialismo histórico e relações internacionais: um ensaio sobre o método. In: GILL, Stephen (Org.): Gramsci, materialismo histórico e relações internacionais. Rio de Janeiro: UFRJ, 1993.

 

RAMOS, Leonardo César Souza. Hegemonia, Revolução Passiva e Globalização: o sistema G7/8. Editora PUC Minas. Belo Horizonte, 2013.

 

XING, Li. The nexus between the Emerging Powers and the Existing World Order: Interdependent Hegemony. The Rising Powers in Global Governance. Disponível em: <http://risingpowersproject.com/nexus-emerging-powers-existing-world-order-interdependent-hegemony/>. Acesso em: 08 set. 2017.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s