O PASSADO AFETANDO O PRESENTE: O KOSOVO E SUAS LIGAÇÕES HISTÓRICAS

 O Kosovo possui uma vasta história e é uma área que sempre esteve em constante disputa nas diferentes eras. A sua população possui uma origem que vem de longe e o conflito atual é diretamente afetado por isso. Com base nisto, este post vai tratar de contar a história e mostrar como o passado influencia o presente no Kosovo, assim como é nas relações internacionais como um todo. Vamos dar um panorama geral sobre o período medieval até o início do século XX e depois contar de forma um pouco mais detalhada o Kosovo neste mesmo século até chegarmos no presente momento.

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Figura 1: Kosovo

Fonte: Digital Trends[1]

A grande maioria da população kosovar é composta por albaneses, o que o aproxima muito da Albânia, que, segundo alegações de livros didáticos do Kosovo, são descendentes da antiga população que vivia nos Balcãs: os Ilírios. Também, o território kosovar era a maior parte da antiga região da Dardânia, uma das terras natais dos ilírios, e, por meio disso, o Kosovo busca afirmar que possuem uma identidade antiga, que se origina na antiguidade. Os sérvios, por outro lado, chegam mais tarde nos Balcãs, por volta do século VI d.C., os quais vieram dos territórios que hoje são russos e ucranianos.

A região da Dardânia foi conquistada pelo Império Romano por volta de 28 a.C. e, assim, compôs parte da sua província de Mésia, mas, a partir do ano de 284, ela se tornou uma província a parte. Com a divisão do império romano em dois (Império Romano Ocidental e Bizantino), os dardânios ficaram sobre o controle dos bizantinos até a já mencionada chegada dos eslavos na península balcânica, que, diga-se passagem, se estabeleceram no território da Bulgária a partir do ano de 550. A partir desta época, as populações eslavas, como os sérvios, croatas e eslovenos foram descendo para os seus respectivos territórios atuais e, então, diminuindo a existência dos ilírios (os quais foram chamados de Arbër a partir do século VII) nestes lugares, mas que continuaram a viverem nos territórios do atual Kosovo, Albânia e Montenegro. A região da Dardânia era considerada um dos berços da população Arbër, já que eram descendentes dos ilírios e, portanto, se manteve neste território durante toda a história, a qual foi conquistada pelos sérvios no final do século VII, assim como o resto do território onde eles se encontravam. A partir de então, os eslavos começam a se estabelecerem de forma massiva nos Balcãs.

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Figura: Illírios

Fonte: Fora adentro[2]

A despeito do avanço sérvio no território kosovar, o então império búlgaro, cuja população era também de origem eslava, conquista o Kosovo no ano de 850 e mantem sobre sua autoridade até por volta do ano de 1018, que é quando o seu imperador Samuel morre. Nesta mesma época, o Império Bizantino decide invadir o Império Búlgaro, tomando de volta estas terras que outrora foram conquistadas pelos sérvios. Após isto, durante os anos em que o império bizantino era a autoridade na região da população arbër, a mesma formava um principado e possuía um governo autônomo reconhecido pelos senhores feudais da época. Enfim, estas partes da história da região balcânica é contada de forma bem rápida pelos livros de história e, portanto, não se possui muitos detalhes sobre a época, mas, ainda assim, é notório e inegável a relação histórica que a Sérvia, o Kosovo e os albaneses de forma geral possuem dentro da península balcânica.

A partir do ano de 1160, a sérvia era governada por Stefan Nemanja, o qual pertencia a uma família que chegou a reinar a Sérvia por durante 200, sendo ele próprio o primeiro da família a ser o rei. O Rei Nemanja, se aproveitando da fragilidade em que o Império Bizantino se encontrava, fez investidas sobre seus territórios nos Balcãs e conquistou todo o território do atual Kosovo entre 1196 e 1216 e, desde então, este território se tornou o centro do Estado sérvio, uma vez que Nemanja e seus sucessores fizeram construções de igrejas e monastérios sobre todo o território kosovar, estabeleceram várias construções da igreja ortodoxa sérvia, os quais atualmente possuem grande significado religioso para os sérvios. Posto isto, o auge do reino sérvio foi durante os anos de 1331 até 1355, momento em que Stefan Dusan o governava. A sérvia possuía para si todo o território do Kosovo, boa parte da Albânia, Macedônia e grande parte da Grécia e tinha como capital a cidade de Prizren, que hoje é uma cidade kosovar. Nesta época houve grandes eventos de discriminação e uma massiva imposição da cultura sérvia sobre a população albanesa. No entanto, após Dusan, a sérvia sofreu um declínio em sua força e foi vendo as cidades se tornarem independentes, ao passo que o Império Otomano vinha em uma notável crescente e é em 1389 em que os sérvios, liderados por príncipe Lazar, e os turcos-otomanos entram em conflito no território Kosovar e travam a marcante “Batalha do Kosovo” (a guerra se passou em um local nomeado de Kosovo Polje), sendo que o lado sérvio sai derrotado, o que marcou como sendo o início da ocupação otomana nos Balcãs e no Kosovo.  A partir de então, o território kosovar era visto como algo mitológico para os sérvios ou, como diz Drebes (2009), se tornou a “Jerusalém Sérvia”.

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Figura 3: Monumento do campo da “Batalha do Kosovo”

Fonte: Balkan History[3]

A dominação otomana sobre o território do Kosovo e dos Balcãs se prolongou por 400 anos. No entanto, ao longo deste período, os albaneses nunca se mostraram satisfeitos com a dominação turca sobre seu território e, por isso, fizeram vários esforços contra o Império Otomano ao longo destes quatro séculos. Um dos pontos mais relevantes ao citar a dominação turca sobre os Balcãs é a disseminação do islamismo sobre tal península, uma vez que isso deixa marcas no presente: a maioria da população kosovar-albanesa tem como crença o islamismo.  Neste contexto, os turcos reprimiram, assim como os sérvios fizeram antes, o exercício da cultura albanesa, mas, ainda assim, os albaneses não deixaram suas tradições no passado e conseguiram mantê-las nas gerações do referido período. A partir do ano de 1830, após os otomanos negarem a vontade dos albaneses de exercerem as tradições de suas etnias, estes começaram a se revoltar contra aqueles, momento o qual ficou conhecido como o despertar nacional dos albaneses, que defendia uma união nacional de todos os territórios dos albaneses. Tal território era dividido em quatro partes, sendo uma delas o Kosovo, os quais, através da criação da “Liga de Prizren” no ano de 1878 e depois com a “Liga de Peja” em 1899, continuavam tentando desvincularem-se do Império Otomano, contra a divisão de suas terras entre os seus vizinhos e, assim, lutavam para ganharem sua independência. Tais ligas acabaram não alcançando seus objetivos e continuaram fazendo parte do território otomano. Durante este mesmo século, a Sérvia ia conquistado sua autonomia aos poucos e foi em 1878, após a conferência de Berlim, que a sua independência foi formalizada. A Sérvia e Montenegro chegaram a ter posse de algumas terras kosovares neste ano, no entanto rapidamente voltaram a fazerem parte do Império Otomano.

Durante os últimos vinte anos do século XIX mencionados acima e até 1912, o território do Kosovo era motivo de disputa entre albaneses e sérvios. Isto porque ela possuía albaneses e sérvios em suas terras, o que fez com que ambas partes contestassem o território para si ao longo desta época e, neste contexto, vários atos de opressão foram feitos contra sérvios por albaneses e vice-versa. O ano de 1912 foi decisivo neste contexto, uma vez que os albaneses, ainda como parte do Império Otomano, começaram novamente um levante contra os mesmos, que se iniciou com os kosovares-albaneses e depois se espalhou para o resto dos albaneses. Neste processo, eles tiveram que lutar não só com os otomanos, mas também com os vizinhos sérvios, que ocuparam o Kosovo e parte do atual norte da Albânia, os quais efetuaram ataques massivos contra os kosovares-albaneses. Essas lutas resultaram nos sérvios conquistando o Kosovo em outubro de 1912 e, no mês de novembro do mesmo ano, o resto do território albanês adquiriu sua independência do Império Otomano, formando o Estado da Albânia.

Durante a Primeira Grande Guerra, o Kosovo foi tomado pelos austro-húngaros e búlgaros, no entanto tal província voltou a ser parte do território sérvio montenegrino no ano de 1918 em conjunto com outros territórios, como os dos eslovenos, croatas, bósnios-herzegovinos. A união destes territórios e povos formaram o “Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos”, cujo rei era sérvio e, em 1929, tal Reino recebeu o nome de Iugoslávia por decisão do Rei Aleksandr. Durante as décadas de 1930 e 1940, a Iugoslávia buscava fazer uma limpeza étnica no Kosovo, com o intuito de tirar os albaneses, que eram maioria, do Kosovo e traçaram estratégias como a reforma agrária, a qual tirava as terras dos albaneses e entregavam aos sérvios, e um acordo de transferir albaneses para a Turquia. Durante a Segunda Grande Guerra o Kosovo foi ocupado por Itália, Alemanha e Bulgária e, ao verem que os kosovares-albaneses estavam muito resistentes em relação a isso, os italianos decidiram declarar o Kosovo como parte da Albânia, o que trouxe esse Estado para o lado fascista. No entanto, com a vitória comunista sobre a Itália e o fascismo, o então governo comunista iugoslavo, liderada por Josip Broz Tito, tomou o Kosovo como parte de seu país novamente, estabeleceu suas atuais fronteiras e a tornou uma província autônoma dentro da Iugoslávia. Entretanto, em 1966, o Kosovo queria mais do que alguma autonomia: os albaneses deste território começaram a lutar a favor de ser reconhecida como uma república dentro da Iugoslávia e, assim, possuir status igual ao da Sérvia. Tal pedido desencadeou em variados ataques e repressão contra estes albaneses.

 Apesar disto, nos anos 70, a Iugoslávia, ainda sobre a carismática liderança de Tito, deu quase que por completo os direitos e características de uma República para a província kosovar, no entanto, ainda assim, era uma unidade política dependente da Sérvia. Com a morte de Tito, a Iugoslávia começou a passar pelo já conhecido desmanche, uma vez que a sua figura era a que unia os vários Estados em prol desse país maior. Portanto, os problemas econômicos e de desigualdade entre regiões começou a ser mais contestada e discutida nos anos 80, além de alguns levantes nacionalistas terem ganhado mais força neste contexto, os quais se arrastarem pelos anos 90 com a independência de Eslovênia, Croácia, Bósnia-Herzegovina e por fim o atual conflito no Kosovo.

Figura 4: Os sérvios mantêm uma forte ligação com o Kosovo e veem-no como o coração cultural da Sérvia; neste pôster da Primeira Guerra Mundial (“Dia do Kosovo”) convoca os aliados do país.

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Fonte: Wikipédia[4]

TEXTO: MARCO TÚLIO MORAIS

Bibliografia

DREBES, Josué Scheer. A independência do Kosovo: A controversa emergência de um Estado na ordem política internacional. Rio Grande do Sul: Pontifícia Universidade Católica, 2009. Disponível em: http://www3.pucrs.br/pucrs/files/uni/poa/direito/graduacao/tcc/tcc2/trabalhos2009_2/josue_drebes.pdf. Acesso em: 07 ago., 2017.

GASHI, Shkëlzen. The history of Kosovo: In the history textbooks of Kosovo, Albania, Serbia, Montenegro and Macedonia. [s.i.]: Alter Habitus, 2016. Disponível em: http://kfos.org/wp-content/uploads/2016/12/Historia_e_Kosoves_SHG_ENG.pdf. Acesso em: 07 ago., 2017.

WOEHREL, Steven. Kosovo: Historical Background to the current conflict. CRS Report For Congress, 1999. Disponível em: https://fas.org/sgp/crs/row/RS20213.pdf. Acesso em: 07 ago., 2017.

[1] Disponível em: https://www.digitaltrends.com/social-media/facebook-kosovo-country/. Acesso em: 25 jul., 2017.

[2] Disponível em: https://foraadentro.wordpress.com/2011/10/page/2/. Acesso em: 30 jul., 2017

[3] Disponível em: http://www.balkanhistory.com/kosovo_1389.htm. Acesso em: 31 jul., 2017.

[4] Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Kosovo. Acesso em: 07 ago., 2017.

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