Situação bélica no mundo [Parte I de III]

Como dito em publicações anteriores no blog do CCW, o pouco conhecimento sobre os armamentos cada vez mais potentes e/ou autônomos e o medo das possibilidades pode criar um cenário bem parecido com o da Guerra Fria. A diferença desse cenário para o cenário atual é que não existe uma rivalidade explícita nesse nível, e nem existem apenas dois polos nesses debates.

Todos os países, possuindo a condição necessária, têm a possibilidade de adquirir armamentos e todos eles serão afetados por essa decisão. Portanto, é racional de que todos os Estados, sejam eles grandes ou pequenos, expressem interesse nesse assunto.

Embora a corrida armamentista tenha acabado com o fim da Guerra Fria, percebe-se que resquícios da mesma ainda existem:

“O resultado dos estudos demonstra que, mesmo décadas após o término da Guerra Fria, os Estados Unidos e a Rússia — o principal país que compunha o bloco soviético — continuam dividindo a maior fatia do bolo do mercado mundial de armas. Ambos dominam 56% do total. Mais do que isso, norte-americanos e russos continuam brigando por áreas de influência por meio da prospecção de governos que se tornam clientes dos aparatos bélicos fabricados nos respectivos países” (VITOR, 2014; destaque nosso).

Tal condição abre a possibilidade de uma discussão ainda mais profunda sobre armamentos no mundo.

Embora as armas estejam presentes em todos os países e sejam consideradas uma das principais formas que um Estado tem para manter sua soberania sobre sua população e território, não são todos os países que possuem em seu solo indústrias bélicas. Indo mais a fundo, percebe-se hoje que grande parte dos países considerados os maiores produtores de armas, possuem um parque industrial diversificado e desenvolvido, condições que a maior parte dos Estados no mundo ainda não foram capazes de atingir.

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Produção de caças Rafale da indústria francessa Dassault Aviation.

Segundo a revista Exame, em 2011 somente os EUA faturavam aproximadamente 150 bilhões de dólares com a indústria armamentista, esse resultado na época, era considerado maior que o PIB da Argentina. Diretamente, se existem países que exportam tantos armamentos e faturam tal valor, consequentemente outros estão em busca dos mesmos.

De acordo com o Stockholm International Peace Research Institute (SIPRI – sigla em inglês para Instituto Internacional de Pesquisas para a Paz de Estocolmo), apesar de ter havido uma redução no número de conflitos, a venda de armas entre 2007 e 2011 cresceu 24% e supera a quantidade da Guerra Fria. Para a situação atual do globo, com guerras e tanta violência, essa notícia é um tanto quanto desesperadora. Ainda segundo os mesmos, isso se dá principalmente pela crescente demanda do Oriente Médio e da Ásia. (AFP, 2017)

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“Entre 2012 e 2016, Ásia e Oceania representaram 43% das importações mundiais de armas convencionais em volume, um aumento de 7,7% com relação ao período 2007-2011, segundo o Instituto Internacional de Pesquisas para a Paz de Estocolmo (SIPRI). A participação da Ásia e da Oceania nas importações internacionais foi levemente superior (44%) entre 2007 e 2011. A dos países do Oriente Médio e das monarquias do Golfo passou de 17% a 29%, muito à frente da Europa (11%, -7 pontos), do continente americano (8,6%, -2,4 pontos) e da África (8,1%, -1,3 ponto)”. (SIPRI, 2017)

A ORGANIZAÇÃO DA INDUSTRIA BÉLICA NO MUNDO

“A expressão Indústria bélica faz referência a um negócio global destinado à produção de armas, equipamento e tecnologia militar, com destaque para armas, munições, mísseis, aviões militares, veículos militares, navios e sistemas eletrônicos. Tal setor concentra-se na pesquisa, desenvolvimento e produção de equipamento bélico em geral, e atende principalmente as forças armadas dos países de todo o mundo”. (SANTIAGO, 2012; destaque nosso).

O que pode não ser muito claro ou simples, é perceber o que esse “concentrar-se na pesquisa” pode significar para os países. É fato que grande parte dos Estados atualmente, preocupam-se com o desenvolvimento e a qualidade da vida de sua população, mas não são todos que conseguem.

De acordo com a ONU, existem hoje 48 países em condição de subdesenvolvimento. Se os mesmos não conseguem nem ao menos suprir condições mínimas para seus cidadãos, é de se pensar que não conseguiriam concentrar-se em pesquisas armamentistas. Em suma, isso gera uma situação em que os países ricos continuarão se desenvolvendo e criando armamentos e os pobres poderão comprar, ou ficarão vulneráveis.

O que acontece na realidade, pois é visível através de dados que os países desenvolvidos, incluindo os cinco países que possuem cadeira permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas, são os que mais exportam e mais lucram com esse mercado. Já os países com menor desenvolvimento são os que mais compram, pois os primeiros têm capacidade para produzir o suficiente para si e para vender, diferente dos últimos.

Para mais informações, confira nossa postagem sobre a questão de armamentos no cenário político internacional e a situação dos níveis de armamentos nos dias de hoje.

SITUAÇÃO BÉLICA NA ÁFRICA

Trinta e quatro (34) dos quarenta e oito (48) países subdesenvolvidos estão presentes no continente africano. Embora isso possa demonstrar que o continente não tem capacidade de desenvolver-se, ou coisa parecida, deve-se lembrar que algumas das recentes economias com maior taxa de crescimento no mundo, vêm do continente africano.

Os gastos com indústria bélica no continente foram um dos que mais cresceram ao se comparar com o resto do mundo. Com gastos relativamente muito altos, as indústrias nacionais têm conseguido abastecer exércitos de países do continente, embora os níveis de importação ainda sejam altos. As armas são empregadas na defesa territorial e na  luta dos governos contra grupos fundamentalistas que têm se instalado por lá e também contra rebeldes, quando há situação de guerra civil.

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Um veículo de artilharia de Camarões.

Obviamente, por ser um continente que demonstra uma situação enorme de vulnerabilidade, não são todos os Estados que possuem condições de manter um grande exército e que este seja bem armado – tanto em quantidade quanto em qualidade. Porém, manter um exército pode ser vital para o governo, isso faz com que todos se esforcem para manter o mínimo de “ordem” ou controle sobre sua população e território.

Outro grave problema vivido pelo continente, segundo o tentente-coronel português José Andrade, é o crescente tráfico de armas desde a Guerra Fria no continente, principalmente no que diz respeito aos países onde são quebradas as restrições impostas pela ONU, nas negociações dos mesmos. (PIMENTA, 2012).

Deve-se manter em mente também a divisão socioeconômica entre o Norte da África e a África Subsaariana.

SITUAÇÃO BÉLICA NA AMÉRICA E EUROPA

Os países Estados Unidos, Rússia, Alemanha, França, Reino Unido, Suécia, Espanha, Ucrânia e Itália, frequentemente aparecem na lista de maiores exportadores de armamentos do mundo, seguidos por Brasil, Argentina e algumas outras potências emergentes. A situação desses continentes é bem confortável se comparada a outros.

Em sua maioria são países que possuem recursos suficientes para pesquisarem e produzirem armamentos e quando não o fazem podem comprar de seus vizinhos. Nesse grupo, tem destaque, como dito anteriormente Estados Unidos e Rússia, que embora estejam sendo ameaçados pelo crescimento da China, possuem mais da metade dos lucros mundiais dessa indústria (PORTAL VERMELHO, 2012).

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Venezuela é o país mais militarizado da América Latina.

SITUAÇÃO BÉLICA NA ÁSIA E ORIENTE MÉDIO

A situação principalmente na Ásia é a seguinte: alguns países com muito dinheiro para o desenvolvimento de armamentos e a compra dos mesmos, outros sem muito recurso, porém o fazendo. Especificamente na Ásia, a Índia, China, Coreia do Sul e Indonésia tem se destacado na compra de armas, o primeiro pelo controle de seu regime político na sua área de ação no continente asiático e o segundo pelas ameaças da vizinha do Norte. Além disso, o atual crescimento econômico nessa área liderado principalmente pelo “Dragão Chinês”, deixa um cenário ideal para o crescimento de as outras áreas (PINTO; 2005).

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Parada militar na Índia

O Oriente Médio tem uma situação crítica, praticamente todos os países precisam de armas devido à localização, recursos como o petróleo e os constantes conflitos. Nessa área, tem se destacado Israel, Emirados Árabes, Arábia Saudita, entre outros – para alguns, o desenvolvimento de armas pode significar a sobrevivência de suas fronteiras. Mas na região, nada se compara com a situação da Síria e do Iraque que hoje enfrentam a maior célula terrorista ativa, o autoproclamado Estado Islâmico (G1; 2017).

Na Síria, a situação é assustadora, o Estado encontra-se no meio de uma Guerra Civil que tem várias frontes, é disputa do interesse de vários grupos internos e externos e hoje, difícil consegue enxergar uma saída para o país (BBC BRASIL; 2015). Já o Iraque, embora ainda se recupere das guerras vividas, é um dos principais atores que lutam contra o ISIS no Oriente Médio, isso obviamente tem como consequência um grande investimento de vidas, de recursos e afins que poderiam ser utilizados na busca de um desenvolvimento maior (G1; 2017).

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Fotos comparando entre antes e depois de bombardeamentos em um dos lugares que antes era frequentado por turistas na Síria.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Em suma, o que esse documento tem como objetivo é mostrar, como a atual organização da indústria bélica leva a uma posição de desigualdade e desconforto. Se por um lado, temos países desenvolvidos ou emergentes pesquisando e produzindo armamentos e tendo lucro com isso, do outro lado existem países pobres, que precisam ou preferem investir em armas vis a vis outras áreas mais emergenciais.

Tal condição só leva a desigualdade e, a introdução de Sistemas Autônomos nesse cenário, pode levar a uma diferenciação ainda maior e mais impactante. Embora o mundo tenha se desenvolvido tanto nos últimos séculos, certas tendências persistem em não mudar.

[1] Dados de 2014, segundo o Jornal Opção.

Escrito pelo diretor assistente Carlos Henrique Vieira

REFERÊNCIAS

AFP. Venda de armas atinge nível recorde desde a Guerra Fria. 20/02/2017. Disponível em: <http://exame.abril.com.br/mundo/venda-de-armas-atinge-nivel-recorde-desde-a-guerra-fria/&gt;. Acesso em: 13 jul. 2017.

BBC Brasil. Oito capítulos para entender a crise na Síria, que dura mais de 4 anos. 13 out. 2015. Disponível em: <http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/10/151012_crise_siria_entenda_rb&gt;. Acesso em: 21 jul. 2017.

PEREIRA, Merval. Corrida Armamentista. 11/08/2006. Disponível em: <http://www.ecsbdefesa.com.br/arq/MP110806.pdf&gt;. Acesso em: 21 jul. 2017.

PIMENTA, José Miguel Andrade Seabra Peralta . O TRÁFICO DE ARMAMENTO EM ÁFRICA. Nov. 2012. Disponível em: <https://www.revistamilitar.pt/artigo/772&gt;. Acesso em: 20 jul. 2017.

PINTO, PAULO ANTÔNIO PEREIRA. China – a ascensão pacífica da Ásia Oriental. Revista Brasileira de Política Internacional, [S.l.], v. 48, n. 2, p. 70-85, nov. 2005. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/rbpi/v48n2/a04v48n2.pdf&gt;. Acesso em: 13 jul. 2017.

PORTAL VERMELHO. Quem é quem no comércio mundial de armas. Disponível em: <http://www.vermelho.org.br/noticia/192477-1&gt;. Acesso em: 20 jul. 2017.

REUTERS. Iraque lança ofensiva contra último reduto do Estado Islâmico em Mossul. 18 jun. 2017. Disponível em: <http://g1.globo.com/mundo/noticia/iraque-lanca-ofensiva-contra-ultimo-reduto-do-estado-islamico-em-mossul.ghtml&gt;. Acesso em: 13 jul. 2017.

SANTIAGO, Emerson. Indústria Bélica. 29 nov. 2012. Disponível em: <http://www.infoescola.com/economia/industria-belica/&gt;. Acesso em: 13 jul. 2017.

SIPRI. SIPRI Arms Industry Database. Disponível em: <https://www.sipri.org/databases/armsindustry&gt;. Acesso em: 13 jul. 2017.

VITOR, Frederico. Os 10 maiores exportadores mundiais de armas e a geopolítica do ferro e fogo. 27/03/2014. Disponível em: <http://www.jornalopcao.com.br/colunas-e-blogs/geopolitica/os-10-maiores-exportadores-mundiais-de-armas-e-geopolitica-ferro-e-fogo-707/&gt;. Acesso em: 13 jul. 2017.

 

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