Waris Dirie e a Fundação Flor do Deserto

Mariane Monteiro da Costa

Diretora

“Quando eu tinha 13 anos, alguns vizinhos vieram em nossa casa e me forçaram a deitar no chão. Em seguida, seguraram minhas pernas abertas e uma mulher velha cortou minha genitália: meu clitóris, os lábios interior e exterior e, depois disso, minha vagina foi costurada. Foi a pior dor que eu já senti na vida e, naquele momento, eu só queria morrer. Desde este dia cruel, tive grandes problemas para urinar, sentia dores terríveis quando menstruava e, por diversas vezes, pensei que nunca poderia ter uma relação sexual com um homem. Nem que poderia ser mãe”.  (ABDULIAH apud SOARES, 2014).

Assim como relatado por Abduliah, cerca de outras 150 milhões de mulheres passam por essa realidade em todo o planeta. Waris Dirie é uma mulher africana, nascida em Galkayo na região desértica da Somália em 1965. Ela teve seu clitóris, grandes e pequenos lábios cortados aos cinco anos de idade. Aos treze anos, fugiu de um casamento forçado com um homem que tinha idade para ser seu avô. Após uma difícil fuga, deixando para trás seu país e sua família, chegou a Londres, onde trabalhou como faxineira na Embaixada da Somália e, depois, no McDonald’s. Aos 18 ela foi descoberta por um famoso fotógrafo, Terence Donovan, como modelo e fotografou para o calendário da Pirelli, em que ganhou projeção mundial. Quando se tornou famosa, fechou contrato com a Revlon, foi uma “Bond girl” e se mudou para Nova York. (DESERT FLOWER, s/d).

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Enquanto se escondia na Embaixada da Somália, Waris acreditava que o procedimento pelo qual passou era correto e necessário para que se casasse no futuro. No entanto, quando passou a ter contato com o mundo de fora, com a cultura britânica, percebeu que não se tratava de cultura, mas sim, de um crime. (GELEDÉS, 2013). Em um ponto de sua carreira, a jornalista Laura Ziv da revista Marie Claire pediu para entrevistar a modelo africana. Nesta entrevista ela revelou o seu passado, contando tudo sobre a sua mutilação genital quando criança.

“(…) Mas depois de pensar muito, eu percebi que eu precisava falar sobre minha circuncisão; Primeiro de tudo, isso me incomoda profundamente. Além dos problemas de saúde que ainda luto, eu nunca vou conhecer os prazeres do sexo. Eu me sinto incompleta, aleijada e sabendo que não há nada que eu possa fazer para mudar isso é o sentimento mais desesperador de todos. A segunda razão foi a minha esperança de tornar as pessoas conscientes de que esta prática ainda ocorre hoje. Eu tenho que falar, não só para mim, mas para milhões de meninas que vivem com ela e aqueles que morrem com ela”. (DIRIE apud READERS DIGEST, 1999).

Com a imensa repercussão da reportagem publicada, Waris Dirie continuou dando mais entrevistas e falando sobre a mutilação genital feminina no Ocidente, onde é pouco conhecida. Isso gerou uma onda de simpatia e protestos contra o procedimento. Em 1997, a biografia “Flor do Deserto” da modelo foi publicada e rapidamente se tornou um best seller mundial e vendeu mais de 11 milhões de cópias. Além disso, em 2008, foi produzido o filme “Flor do Deserto” que teve Waris Dirie como produtora associada e produção do ganhador do Oscar Peter Hermann. (DESERT FLOWER, s/d).

Koffi Annan, Secretário Geral das Nações Unidas, em 1996, chama Waris Dirie para ser embaixadora especial na luta contra a mutilação genital feminina. Ela viaja ao redor do mundo em nome das Nações Unidas, participando de conferências, conhecendo líderes mundiais, ganhadores do prêmio Nobel e dando entrevistas para chamar atenção para a causa. A partir de então, se torna uma ativista dos direitos humanos. (DESERT FLOWER, s/d). Em 1997, o Fundo das Nações Unidas para a População (UNFPA) convidou a modelo para participar da luta para acabar com a mutilação genital feminina juntamente com a Organização Mundial da Saúde (OMS), que, na época, disponibilizou uma cartilha com informações sobre os procedimentos. (READERS DIGEST, 1999).

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Em 2002, ela cria a Fundação Waris Dirie para ajudar no seu trabalho na luta contra a mutilação genital feminina. Em 2010, a fundação foi renomeada Flor do Deserto para projetar a abordagem da MGF a partir de projetos econômicos na África. Atualmente, a organização possui sede em Viena e escritórios na Alemanha, Suíça, Holanda, Mônaco, França, Espanha, Reino Unido, Suécia, Djibuti, Serra Leoa e Polônia. (DESERT FLOWER, s/d).

Todas as campanhas, projetos e atividades são financiadas por doadores privados. A organização tem como objetivos: aumentar a conscientização através de workshops, seminários, conferências, apresentações, entre outros; trabalho preventivo por projetos como “Salve uma pequena Flor do Deserto” que almeja proteger crianças na África da MGF; e reparação de danos ajudando e guiando vítimas a reconstruir, o quanto possível, sua qualidade de vida e confiança. (DESERT FLOWER, s/d).

Para maiores informações sobre a Fundação Flor do Deserto clique neste link (disponível em inglês).

REFERÊNCIAS

DESERT FLOWER. Waris Dirie. s/d. Disponível em: <http://www.desertflowerfoundation.org/en/waris-dirie.html&gt; Acesso em: 24 ago. 2017.

GELEDÉS. “A circuncisão feminina é um crime que clama por justiça” diz Waris Dirie. Agosto de 2013. Disponível em: <https://www.geledes.org.br/a-circuncisao-feminina-e-um-crime-que-clama-por-justica-diz-waris-dirie/&gt; Acesso em: 24 ago. 2017.

READERS DIGEST. A História de Waris Dirie. Junho de 1999. Disponível em: <http://janeentrelinhas.blogspot.com.br/2014/04/waris-dirie-corajosa-flor-do-deserto.html&gt; Acesso em: 24 ago. 2017.

SOARES, Ana Lis. Mutilação genital feminina é prática ainda vigente em 29 países do mundo. Abril de 2014. Disponível em: <http://www.compromissoeatitude.org.br/naquele-momento-so-queria-morrer-conta-mulher-mutilada-terra-29052014/&gt; Acesso em: 24 ago. 2017.

 

 

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