Charlottesville e a permanência da segregação racial nos Estados Unidos da América

Recentemente, observamos assustados a manifestação de grupos da extrema-direita na cidade de Charlottesville, no estado da Virgínia. O grupo defensor da supremacia branca, ao caminhar pela cidade, entoava cantos como “Vidas brancas importam” (em oposição ao “Black lives matter”, movimento contrário à forte repressão policial sofrida pelos negros nos EUA), bem como homenagens ao grupo Ku Klux Klan (também conhecido como KKK), que “promove linchamentos, enforcamentos e assassinatos de pessoas negras”. (SENRA, 2017)

Houveram aqueles que não aceitaram a situação calados e foram para as ruas protestarem contra os racistas. Os dois grupos entraram e confronto e uma pessoa morreu. (SENRA, 2017) O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, mediu palavras ao falar sobre o ocorrido e disse apenas que “os dois lados tiveram culpa” (MERICA, 2017).

O ocorrido levanta uma série de questionamentos acerca da atual conjuntura dentro dos Estados Unidos, como por que o país permite que grupos assumidamente racistas se manifestem dentro deste e por que, após tantos anos da abolição da escravidão, a segregação racial persiste no país?

Em relação à primeira pergunta, a resposta é que se trata de liberdade de expressão, ou seja, “o uso de símbolos do nazismo, o discurso de ódio e a existência de grupos de perfil neonazista são práticas legais, amparadas no direito à livre expressão garantido pela Constituição”. (LIMA, 2017).

Já a segunda pergunta é bem mais complicada de se achar uma resposta concreta, mas tem relação com o fato de o racismo ser algo institucionalizado dentro dos Estados Unidos. Mesmo após a guerra civil (1861-65), os negros nunca foram completamente inseridos ou aceitos na sociedade estadunidense, especialmente nas regiões do sul, que lutaram a favor da manutenção do regime escravocrata (nesse momento surge a Ku Klux Klan). Vale destacar que, até recentemente, os Estados Unidos desfrutavam de um regime de apartheid, semelhante ao da África do Sul, em que eram delimitados locais para brancos e negros (bairros, banheiros, ônibus). (WCAR, 2017)

Estudos mostram que, apesar de a segregação entre negros e brancos estar diminuindo desde os anos 70, ela ainda é muito elevada. (SPARROW, 2014). Parte dessa diminuição, no entanto, deve-se consideravelmente a grupos que lutam contra esse racismo institucionalizado dentro do país, como o movimento “Black lives matter” (menção honrosa a Martin Luther King e Rosa Parks).

Laís Souza

Diretora-Assistente do WCAR.

REFERÊNCIAS:

LIMA, Lioman. Por que é mais fácil ser neonazista nos EUA do que na Alemanha. BBC, 2017. Disponível em: <http://www.bbc.com/portuguese/internacional-40958924 >. Acesso em: 31 ago. 2017.

MERICA, Dan. Trump says both sides to blame amid Charlottesville backlash. CNN, 2017. Disponível em: <http://edition.cnn.com/2017/08/15/politics/trump-charlottesville-delay/index.html&gt;. Acesso em: 31 ago. 2017.

SENRA, Ricardo. Intolerância, racismo às claras e fuzis à mostra: o que vi (e senti) no maior protesto movido pelo ódio em décadas nos EUA. BBC, 2017. Disponível em: <http://www.bbc.com/portuguese/internacional-40918594&gt;. Acesso em: 31 ago. 2017.

SPARROW, Thomas. Brancos e negros ainda vivem separados nos EUA?. BBC, 2014. Disponível em: <http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2014/08/140820_divisao_racial_estados_unidos_ferguson_lgb&gt;. Acesso em: 31 ago. 2017.

WCAR (Conferência Mundial Contra o Racismo). MINIONU, 2017. Disponível em: <https://minionupucmg.files.wordpress.com/2017/06/guia-de-estudos-wcar-2017.pdf&gt;. Acesso em: 31 ago. 2017.

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