Guerras Mundiais e os Armamentos

Em junho de 1914, em Saravejo, o arquiduque do Império Austro-húngaro, Francisco Ferdinando, estava em visita oficial a capita da Bósnia Herzegovina, que havia sido integrado pelo império austro húngaro em 1908, a partir de uma decisão unilateral de Viena, a quem a região havia sido temporariamente confiada, em 1978. Tal medida unilateral aumentara o ressentimento do povo sérvio, uma vez que o país reivindicava a Bósnia Herzegovina para a realização de um projeto de criação de um estado que reunisse todos os povos “eslavos do sul”, com o apoio da Igreja Ortodoxa Servia e o Império Czarista. Nessa ocasião, Gavrilo Princip, em conjunto com outros cinco companheiros armados pela organização secreta nacionalista sérvia conhecida como “Mão Negra”, cometeram o assassinato do arquiduque e sua esposa (CLARK, 2014).

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Kaiser Guilherme da Alemanha e seus principais generais.

O assassinato se tornou a faísca inicial que inflamaria as tensões acumuladas por décadas, apesar das tentativas de formar alianças para dissuadir o sentimento de vingança latente em muitos países. Na realidade, essa configuração de alianças e contra alianças estabeleceu um sistema destinado ao fracasso, como havia ficado evidente nos anos que antecederam o ataque em Saravejo, por ocasiões de crises internacionais que já haviam levado a comunidade internacional à beira de guerras. Justamente por essas condições politicas, resultantes também de dinâmicas econômicas, houve um rearmamento generalizado, fomentado também pelo desenvolvimento industrial, que acarretou o surgimento de novos instrumentos de guerra, com maior poder destrutivo (CLARK, 2014).

Considerada como um campo de experiências tecnológicas, o avanço da tecnologia revolucionou o combate no século XX.

Tecnologias já existentes, como o submarino e a aviação foram desenvolvidas, e ganharam força durante o conflito. Além disso, houve um avanço significativo no que diz respeito ao uso da eletricidade, a partir do momento em que la foi adotada para uso em campos militares. O rádio também foi aprimorado, e se tornou uma essência fonte de comunicação.

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Ilustração da estrutura das trincheiras.

Outro desenvolvimento decisivo foi o de armas químicas, como o gás mostarda e de cloro, que além de vítimas militares, também atingiu a população civil, visto que os gases eram transportados pelo vento. A utilização de gases rompeu com a tradição das Guerras de Trincheiras, contudo, seu uso ainda era precário [1] (RAUDZENS, 1990).

Foi dado início a Primeira Grande Guerra, que provocou mudanças profundas não só na Europa, mas em todo o mundo.

O conflito foi um divisor de águas na história, uma vez que por sua causa, não só os Estados diretamente ligados à guerra sofreram mudanças radicais em sua estrutura geográfica, politica e econômica. Vários outros países foram afetados, o que acarretou no surgimento de uma nova ordem mundial, com o fim de impérios seculares e o surgimento de novos estados e de novas potências a nível global.

A I Guerra trouxe consigo custos materiais e humanos devastadores, deixando um enorme número de mortos e mutilados, além de milhões de refugiados (H.P WILLMOT, 2014). Em agosto de 1914 o poderio bélico já superava qualquer proposta de dialogo no campo diplomático, contudo, era difundida a ideia de que a guerra seria rápida e bem-sucedida, quando na realidade, a guerra durou quatro anos, mas suas consequências se arrastaram por mais duas décadas.laufgraben-bei-der-schlacht-an-der-somme-7168

Em 1917, na Rússia, a situação militar estava precária, a economia se encontrava em colapso, e a sociedade estava em plena ebulição. Mesmo a abdicação do Czar e a proclamação da república não interferiram na permanência na guerra ao lado dos Aliados, que prevaleceu como um fracasso. Os bolcheviques tomaram o poder no final de 1917, e Lenin tornou-se chefe de governo e Trotsky foi encarregado de entrar em acordo com as Potências Centrais. (JUSTO, 2014).

O ano de 1917 também foi marcado pela entrada dos Estados Unidos no conflito. A decisão americana poderia ser vista como uma consequência natural da guerra submarina conduzida pelos alemães, que havia tirado a vida de milhares de americanos. Contudo, na realidade, a decisão estava intrinsecamente relacionada à politicas econômicas e diplomáticas que o país vinha conduzindo, que não mais eram compatíveis com a neutralidade. Esse fato mudou, de forma inequívoca e definitiva, o eixo das forças para o lado dos Aliados (STRINER, 2014).trabalhadores_de_uma_fabrica_de_bombas_na_inglaterra_flickr_iwm_collections_vert

Em junho e julho de 1918 as frentes começavam a se dissolver, em novembro o imperador alemão deixou seu quarte general para se refugiar na Holanda, dado o colapso da situação militar, revoltas em cidades alemãs e motins no exército e na marinha. No mesmo dia se encerrou a Primeira Grande Guerra com a assinatura do armistício pela Alemanha.

Seguiram-se longas negociações, nas quais desapareceram grandes impérios; foram redefinidos os limites dos vencedores e perdedores, com um clima de revanchismo; surgiram novos estados; as colônias alemãs foram divididas entre a França e a Grã-Bretanha. Outra mudança proveniente da guerra foi a criação da Liga das Nações, com o objetivo de se ter um organismo internacional capaz de encontrar uma solução diplomática para quaisquer novos conflitos (FERRO, 2008).

Da Grande Guerra surgiu um mundo diferente, marcado por ressentimentos, tensões, violência e injustiças, não só entre os vencedores e perdedores, mas também entre os próprios vencedores. Das cinzas da guerra surgiu uma situação de profunda instabilidade, que em breve resultaria em novos conflitos.

d250b47518119992b1bebe1f2251604c--about-history-world-war-one.jpgOs lança-chamas, tanques, zepelins, aviões de guerra, submarinos, dentre outras tecnologias desenvolvidas durante a I Guerra seriam decisivas durante a II Guerra, que estourou em 1939.

As perdas decorrentes da I Guerra fomentaram um nacionalismo irredentista e revanchista em vários países europeus, dados os prejuízos significativos incorridos pelo Tratado de Versalhes. O movimento fascista, liderado por Mussolini, tomou o poder na Itália, a partir de uma agenda de extrema-direita, totalitária, ultranacionalista com uma politica externa agressiva, dedicada a inserir a Itália como uma potência através do uso da força.

A Alemanha por sua vez, em 1933, adotou a visão radical e rearmamentista de Hitler, que repudiava o Tratado de Versalhes, e iniciou um programa de recrutamento e rearmamento do país. A ideologia nazista adquiriu força durante a Grande Depressão, incitando ainda mais o sentimento revanchista do país (BEEVOR, 2012).

Quando eclodiu a Guerra Civil Espanhola, em 1936, Hitler e Mussolini apoiaram as forças nacionalistas fascistas e autoritárias do general Francisco Franco contra a República Espanhola, que era apoiada pela URSS. Os dois lados do conflito, viram ali a oportunidade de testar novos armamentos e métodos de guerra. O bombardeio de Guérnica foi considerado um dos piores ataques militares da época. (BEEVOR, 2007).

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Obra de Pablo Picasso, 1937, retratando os horrores da Guerra Civil na Espanha

Muito embora a invasão da Polônia pela Alemanha, em 1939, seja considerada o estopim, ou marco inicial da guerra, alguns países já se encontravam em guerra. A Segunda Guerra Mundial foi um conflito militar de escala global, envolvendo nações de todos os continentes, resultado de uma tentativa de solucionar conflitos remanescentes da I Guerra. Itália e Alemanha não aceitavam a derrota e, junto ao Japão, exigiam uma redistribuição dos mercados mundiais para a expansão de seus parques industriais (BEEVOR, 2012).

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Ataque a Pearl Harbor

Os três primeiros anos do conflito foram marcados por vitórias do Eixo, lideradas pelas forças armadas alemãs, que conquistaram o norte da França, Polônia, Iugoslávia, Ucrânia, Noruega e alguns territórios do norte-africano. O Japão anexou a Manchúria, e a Itália conquistou a Albânia e territórios Líbios. Os EUA entraram na guerra ao lado das forças aliadas, após o ataque do Japão a base militar norte-americana de Pearl Harbor, em 1941. Após esse fato, se iniciaram as derrotas do eixo, a partir das perdas sofridas pelos alemães no inverno russo.holocausto980

O conflito abrangeu nações de todos os continentes, incluindo todas as grandes potências da época, com mais de 100 milhões de militares mobilizados. O período foi marcado por um número significante de ataques contra civis, incluindo o Holocausto, e a única vez em que armas nucleares foram utilizadas em combate (SOMMERVILLE, 2008).

A Segunda Guerra foi caracterizada por uma crescente produção de aviões e pelo rápido desenvolvimento de tal tecnologia; os caças a jato foram criados durante a guerra, e os aviões eram utilizados para reconhecimento, como caças, bombardeiros e aeronaves de apoio no solo; a guerra naval também se desenvolveu a partir do aperfeiçoamento de submarinos e porta-aviões. A partir das táticas utilizadas durante a I Guerra, as táticas de guerra adquiriram mais mobilidade, e os tanques foram desenvolvidos para ocupar o lugar de arma principal.

img13Outra tecnologia revolucionária durante esse conflito foi o computador, criado para decifrar as informações interceptadas do exército alemão e para realizar cálculos de direcionamento balístico. No entanto, o foco dos desenvolvimentos foi o desenvolvimento da tecnologia nuclear, hoje uma das fontes de energia mais utilizada do mundo, mas que no período de guerra foi a arma mais letal e destrutiva que provocou mais de 200 mil mortes em Hiroshima e Nagasaki (RAUDZENS, 1990).

A guerra terminou com a vitória dos aliados em 1945, alterando significativamente a estrutura politica e social do mundo todo. Após o fim do conflito, as potências do eixo se encontravam devastadas. Foram realizadas diversas conferências a fim de decidir a divisão territorial e o futuro da Alemanha pós-guerra; o país foi multado e boa parte da indenização foi destinada a União Soviética. EUA e URSS emergiam da guerra como superpotências rivais, preparando o terreno para a Guerra Fria, que duraria mais de 40 anos. Enquanto os soviéticos controlavam a região oriental da Europa, os Estados Unidos influenciavam a parte ocidental do continente. Após o fracasso da Liga das Nações, a Organização das Nações Unidas foi a tentativa de estimular a cooperação global e evitar futuros conflitos (GADDIS, 2005).

[1] O uso de armas químicas foi banido na Convenção de Genebra, em 1949. No entanto, ainda existem registros de seu uso, como por exemplo, no conflito sírio.

Por: diretora assistente Letícia Laborê
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Arma ferroviária pesada da Alemanha desenvolvido no final dos anos 1930, pesava aproximadamente 1.300 toneladas e disparava artigos a uma distância de 110km.

OUTROS LINKS

http://www.gobetago.com.br/2016/05/20/6-armas-malucas-que-realmente-foram-usadas-na-2a-guerra-mundial/

http://veja.abril.com.br/mundo/as-armas-que-ceifaram-uma-geracao-na-i-guerra-mundial/

https://super.abril.com.br/ciencia/armas-quimicas-e-biologicas/

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BARTHAS, L. Cuadernos de guerra (1914-1918). Madrid: Páginas de Espuma, 2014.

BEEVOR, Antony. A Batalha Pela Espanha. Rio de Janeiro, Record, 2007.

_______________The Second World War. Londres: Weidenfeld & Nicolson, 2012

CLARK, CH. Os Sonâmbulos: Como Eclodiu a Primeira Guerra Mundial. São Paulo, Companhia das Letras, 2014.

 GADDIS, John Lewis. The Cold War: A New History. Penguin Press, 2005.

H.P. WILLMOTT. Primeira Guerra Mundial. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 2014.

International Society for First World War Studies. Disponível em: http://www.firstworldwarstudies.org/ Acesso em: 01 de Jul de 2017.

JUSTO, Saymon de Oliveira. Trotsky e a Formação do Exército Vermelho. Curitiba, Editora Prismas, 2014

FERRO,Marc. A Grande Guerra. 1914-1918. Portugal, Edições 70, 2008.

SOMMERVILLE, Donald. The Complete Illustrated History of World War Two: An Authoritative Account of the Deadliest Conflict in Human History with Analysis of Decisive Encounters and Landmark Engagements. Lorenz Books, 2008.

RAUDZENS, George. War-Winning Weapons: The Measurement of Technological Determinism in Military History. Society for Military History, The Journal of Military History,1990.

STRINER, R. Woodrow Wilson and World War I. A Burden too great to Bear. Lanham (Md): Rowman & Littlefield, 2014.

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