Política de Branqueamento da População Brasileira

No fim do século XIX, a elite política e intelectual brasileira teria sentido a necessidade de “branquear” a população brasileira, já que as teorias raciais clássicas exaltavam a pureza racial e pregavam que a mistura racial provocava necessariamente degeneração. (HOFBAUER, 2011). Esta elite, que via-se caminhando para um fim certo do regime de escravidão (Brasil foi um dos últimos países a abolir a escravidão, e já sofria pressões internacionais para que a mesma chegasse ao fim), “preocupava-se” que o futuro do Brasil estivesse comprometido devido a presença do grande número de africanos e afrodescendentes, os quais eles consideravam como uma “raça inferior”. (HOFBAUER, 2011).

A tese do branqueamento, surge então como uma possibilidade de transformar uma raça inferior em uma raça superior. No entanto, os pensadores da época acreditavam que o enobrecimento das raças inferiores só poderia ser alcançado se fosse possível garantir uma predominância numérica de brancos em casamentos interraciais. Esse foi o raciocínio que justificou uma política de Estado que objetivava trazer mão-de-obra branca (portugueses, italianos dentre outros povos europeus) ao Brasil. (HOFBAUER, 2011)

“Chama a atenção o fato de que a reflexão e o projeto da intelligentsia brasileira, desde que começou a pensar num possível fim da escravidão, estiveram vinculados à proposta de importar mão-de-obra européia. Sabemos que num período de menos de 25 anos (de 1890 a 1914) chegaram 2,5 milhões de europeus ao Brasil; quase um milhão deles (987.000) tinha suas viagens de navio financiadas pelo Estado. Um documento, publicado pela Diretoria Geral de Estatística e assinado por Oliveira Vianna (apud ANDREWS, 1997, p. 97; ênfase no original),3 avalia o resultado do censo de 1920 da seguinte maneira: [constata-se] ―uma tendência que está se tornando mais visível e definida: (…) [a] progressiva arianização de nossos grupos regionais. Ou seja, o coeficiente da raça branca está se tornando cada vez maior em nossa população.” (HOFBAUER, 2011, p.2)

Esta mão-de-obra branco-europeia ocupou os trabalhos que antes eram feitos pelos negros em situação de escravidão, porém de maneira assalariada, restando aos agora libertos ex-escravos continuar se submetendo a escravidão em troca de moradia e comida, ou conseguindo trabalhos com salários muito precários, ou então, relegados a marginalização, tendo de fazer o que fosse necessário para sobreviver (muitos foram viver em favelas e muitos inseriram-se na vida criminosa).

Já no fim do século XIX e início do século XX, a população negra ia de fato se extinguindo, e também se extinguia com ela a consciência de pertencimento a uma classe ou grupo social que deveria lutar por direitos e condições igualitárias de vida. Alimentado pela “imprensa branca, o padrão de beleza europeu, e toda a ideia de branquitude como “raça” superior era propagado na sociedade, por vezes de maneira sutil e sublimar, por vezes explicita e direta. Assim, o modelo ideal que era representado pelo ser branco, atuou nas mais diversas esferas do comportamento do negro brasileiro passando por hábitos, tradições, costumes, e pela estética. (SANTOS, 2009)

“O peculiar desta ideologia foi transformar o discriminado em agente reprodutor do discurso discriminatório, colocando o negro a serviço de uma prática racista. Pelo enfoque estritamente psicológico, o coroamento do racismo se materializa quando a vítima assume o papel de seu próprio algoz. Em última instância, estamos diante de um quadro favorável ao “raçacídio”, que consistiria no suicídio coletivo de uma comunidade étnica, a médio e longo prazos, com armas ideológicas impostas de fora para dentro e aceitas pelos membros desta comunidade.” (DOMINGUES, 2002 apud SANTOS, 2009, p.177)

Logo, esta ideologia, influenciada pelas teorias racialistas do século XIX, disseminava na sociedade brasileira o ideário da superioridade da raça branca e incentivava de forma incisiva o negro a resignar-se “diante de sua própria inferioridade” (SANTOS, 2005 apud SANTOS 2009)

Esse discurso fez acreditar que no Brasil nunca houvera barreiras raciais (dada à miscigenação). Desta maneira, a responsabilidade da não-ascenção social se dava pela incapacidade do próprio individuo negro (SANTOS, 2009). A pergunta que se faz diante da situação exposta é: a ideologia do branqueamento faz parte apenas do passado brasileiro no contexto ou permanece vigorando ainda nos dias atuais?

Comumente atribuído a Gilberto Freyre, o termo “democracia racial” representa uma leitura da realidade brasileira que visava provar, para o Brasil e para o mundo, que a escravidão no brasil foi mais branda e que vivíamos num “paraíso racial”, em que as “raças” conviviam harmoniosamente com iguais oportunidades de ascensão social, econômica e política. (SANTOS, 2009)

Porém, o legado dessa ideologia é gravíssimo pois, mantem inalteradas as estruturas que privilegiam indivíduos brancos e marginaliza indivíduos negros; isenta a população de uma real contestação acerca de desigualdade étnico-racial já que pressupõe que a hierarquização racial da população está ligada a fatores econômicos, já que a grande parcela da população negra também é pobre, não entendendo por sua vez que a opressão racial e econômica não são separadas, mas se interssecionam formando um tipo específico de opressão; assim, o mito da democracia racial visa desconstruir todo discurso que negue a não-existência do racismo. Qual o argumento utilizado? O racismo é creditado a quem propõe medidas que alterem o status quo, ou seja, as pessoas que apontam e questionam o racismo são muitas vezes erroneamente taxadas de serem elas próprias, racistas (SANTOS, 2009).

 

 

 

Marina Teixeira,

Diretora da WCAR 2017.

 

Referencias:

HOFBAUER, Andreas. Branqueamento e democracia racial: sobre as entranhas do racismo no Brasil. 2011. Disponível em: https://andreashofbauer.files.wordpress.com/2011/08/branqueamento-e-democracia-racial_finalc3adssima_2011.pdf

SANTOS, Natália Néris da Silva. Ideologia do branqueamento, ideologia da democracia racial e as políticas públicas direcionadas ao negro brasileiro. Revista Urutágua, n°19, set./out./nov./dez. 2009 – quadrimestral, Maringá (PR) – ISSN 1519-6178. Disponível em: http://periodicos.uem.br/ojs/index.php/Urutagua/article/view/6400

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s