História das Guerras Medievais – Séc XX

GUERRA DOS 30 ANOS E PAZ DE WESTPHALIA

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Mesmo que o sistema internacional seja composto por diversos agentes, o Estado ainda é o que mais tem voz. Ele pode ser definido como “país soberano, com estrutura própria e politicamente organizado”, “conjunto das instituições (governo, forças armadas, funcionalismo público etc.)

 

que controlam e administram uma nação”, “forma de governo, regime político” (Dicionário Online), entre outras. Todas elas foram estabelecidas a partir da Paz de Vestfália (1648), ou carregam em si resquícios de acordos a partir desse período.

 

Essas definições estabelecem um ponto de partida no entendimento do comportamento dos Estados, e consequentemente no Comitê Sobre Certas Armas Convencionais. É por isso que nessa postagem trabalharemos com o histórico dos principais conflitos armados dos continentes com o recorte temporal entre o século XVII e o começo do século XX com os antecedentes da Primeira Guerra Mundial. Afinal, esses conflitos fizeram parte do processo que moldou o sistema internacional, e também foram empregados muitos tipos de armamentos nelas – tema de nosso comitê.

 

Entretanto, para chegar a essas conclusões foram necessários vários acontecimentos e um dos mais importantes foi a Guerra dos Trinta Anos (1618 a 1648). Vários autores reconhecem esse conjunto de conflitos que aconteceram durante trinta anos como um conflito fomentado pelas ideologias protestante e católica. Estima-se que mais de quatro milhões de pessoas morreram e destruição de rebanhos e colheitas. (MOITA; 2012).

Ocorreu enorme desenvolvimento tecnológico-militar durante os anos dessa guerra. Foi a primeira guerra que envolveu de forma completa os países que participaram, incluindo sua economia e sociedade. Os exércitos tiveram um “BOOM” em seu tamanho e passaram a se profissionalizar (e não ser apenas camponeses com foices) em treinamento e em hierarquia.

As armas de fogo já existentes foram grandemente melhoradas em ambos os lados do conflito ficaram mais leves para melhorar a mobilidade, e novas foram criadas, mas o uso de espadas ainda era muito comum. Os canhões ainda eram enormes e muito pesados e às vezes precisavam serem carregados em um carro puxado por quatro cavalos. Outras tecnologias melhoradas foram os mapas e binóculos. Mas todo esse conflito custou muito caro no quesito econômico e a paz foi, antes de tudo, alcançada pela exaustão. (MILITARY DEVELOPMENTS…., 2016).

id med canA partir desse conflito os conceitos como o de soberania foram sendo discutidos e incorporados à vida dos Estados e Impérios que justificavam suas atitudes a partir da premissa da sobrevivência, agindo conforme achavam necessário para continuar existindo. Essas definições, como dito anteriormente, perduram até o momento atual, e há uma centena de anos atrás, foram utilizadas num dos maiores conflitos causados por estados soberanos, a Primeira Grande Guerra (1914 a 1918).

PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

A história da Primeira Guerra Mundial não soa estranha a ninguém, tinha-se de um lado a Tríplice Aliança e do outro a Tríplice Entente, com a vitória da primeira. Para alguns historiadores esse conflito generalizado entre as maiores potências do mundo vinha de surpresa depois de supostos cem longos anos de paz. Essa visão seria a “visão de um cidadão europeu comum”, pois como diz Eric Hobsbawm, tal pessoa não acreditaria em uma guerra de tal proporção, com os avanços tecnológicos. Entretanto, eles se esquecem dos motivos que levaram ao início dessa Guerra e consequentemente os conflitos que aconteciam fora do continente europeu. (HOBSBAWM; 1994).

Mas não sendo um cidadão europeu comum, percebe-se que a paz tão longa e duradora era na verdade uma Paz Armada, embora tudo parecesse calmo e bonito, todos viviam uma paz, enquanto se armavam para se proteger do outro, mais uma vez pensando em sua sobrevivência [1]. Ao mesmo tempo, o território europeu só se mantinha intacto pois todos os esforços estavam voltados para a corrida imperialista que acontecia principalmente na África. Com o fim de territórios disponíveis e a ascensão de pensamentos nacionalistas cada vez mais fortes, o terreno para o conflito estava preparado, e não demorou muito para que o mesmo ocorresse. (HOBSBAWM; 1994).

CONFLITOS NA ÁFRICA

Antes mesmo de a Primeira Grande Guerra começar houveram vários conflitos militar-político nos anos anteriores. Um dos precedentes deste fato foi que a África deixa de se tornar um agente secundário e vira, portanto, o alvo principal de todas as potências da época. A partilha da África (1880) após o Tratado de Berlim (1878) foi o ponto em que as potências disputavam posições privilegiadas no comércio internacional, levando a muitos países da Europa a uma corrida exploratória no continente africano, começando pelo extermínio das elites africanas locais. Logo em seguida conseguindo o feito, foi expandindo a exploração na busca pela mão de obra, matéria-prima e mercado consumidor para a manutenção de suas economias durante o crescimento da industrialização em seus territórios na Europa. (PIRES; FOGARTY, 2014).

Embora os quesitos históricos sejam muito importantes, é ainda mais, perceber como a tecnologia permitiu que os europeus pudessem conquistar os povos africanos. Enquanto os segundos eram exímios guerreiros, não possuíam o mesmo nível tecnológico em armamentos que os europeus. Os resultado de exploração podem ser observados até hoje [2]. (DIAMOND, 1997).

(c) National Army Museum; Supplied by The Public Catalogue Foundation
Batalha de iSandlwana (1854-1906). Pintura de Charles Edwin Fripp. Fonte.

Um exemplo disso foi a Guerra Anglo-Zulu de 1879, em que foi notável por ter batalhas extremamente sangrentas. Com a descoberta de diamantes no interior do continente africano, europeus começaram a ter maior interesse naquela área, entrando assim em conflito com as populações que já moravam ali. Os guerreiros Zulus começaram a guerra ganhando na Batalha de iSandlwana, pois uma vez que chegassem perto das tropas inimigas eles tornavam-se invencíveis no combate físico com lanças que possuíam. Porém, com a massacrada derrota, o exército britânico revidou fortemente e conseguiu por fim conquistar o Império Zulu. (DALL, 2017).

Uma das guerras locais que ocorreram na África precedendo a Primeira Grande Guerra foi a Questão Marroquina, na qual várias potências imperialistas disputavam o território marroquino. Tentando diminuir o conflito e entrar num acordo, as nações Imperialistas realizaram a Convenção de Madrid (1880), na qual França, Inglaterra e a Alemanha possuíam direitos iguais na exploração comercial no Marrocos. (PIRES; FOGARTY, 2014).

CONFLITOS NA ÁSIA E ORIENTE MÉDIO

A Ásia também foi palco de disputa da corrida imperialista Europeia no século XIX. Colônias como as Índias, Macau e Hong Kong, representavam a força dos países ocidentais no Oriente. Entretanto, assim como na África e América, a colonização não foi feita sem violência [3]. (SOMMA, 2003).

Além dos conflitos causados por forças externas, a Ásia sempre foi um continente muito ativo militarmente. Grande exemplo disso é o Império Mongol, um dos maiores impérios do mundo que conquistou durante os séculos XVIII e XIV praticamente toda Ásia continental, leste europeu e Oriente Médio e foi criado por Genghis Khan. Seus exércitos eram muito leais e bem treinados, seu principal componente eram os arqueiros montados em cavalos, mas também utilizavam diversos tipos de máquinas de guerra e estiveram entre os primeiros que utilizaram armas de fogo com pólvora. Esse ímpeto do Império Mongol os levou a tentar atacar o Japão e embora essa tentativa tenha falhado. (GENGIS KHAN…., 2017).

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Invasão japonesa na Manchuria. Fonte.

A China caracteriza-se como um dos países que mais entraram em guerras na história. Outro exemplo muito importante, embora mais atual é a invasão do Império Japonês na Coréia e na Manchúria a partir de 1910 e durou até o fim Segunda Grande Guerra (1945), muitos cidadãos coreanos, chineses e mongóis ainda hoje demonstram grande desafeto com os japoneses, que em um momento de expansão torturou e matou milhares de irmãos asiáticos de formas inimagináveis (ARAUJO, 2003; GENGIS KHAN…., 2017).

 

Assim, alianças entre chineses e coreanos com japoneses são bem raras, mas não menos importantes, pois a hostilidade alimentada por esses países aos nipônicos já dura décadas e parece não findar. A ascensão chinesa no cenário mundial hoje, também é vista como um motivo para preocupação, sendo um dos únicos países socialistas ainda presentes no mundo e desrespeitando várias normas internacionais. Países ocidentais mostram-se atentos a esta ascensão.

Além do avanço Dragão Chinês, outra coisa tem assustado as potências ocidentais, principalmente por sua dependência ao petróleo; os conflitos no Oriente Médio. Acredita-se que em torno de 60% do petróleo mundial encontra-se na área, mas os movimentos terroristas e as guerras no local têm dificultado a extração do mesmo.  Atualmente é uma das áreas mais instáveis do mundo e embora alguns países tenham avançado muito e investido em luxuosas construções para atrair turistas, outros ainda passam por graves crises, sem terem ao menos condições mínimas de sobrevivência (VAZ, 2016).

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Infantaria japonesa durante a invasão da Manchúria. Fonte.

Mais uma vez, pode se pensar que esses conflitos e conquistas só se tornaram possíveis graças a avanços tecnológicos e estratégicos feitos pelos mesmos, sejam os mongóis com seus barcos na tentativa de conquistar o Japão ou na construção de seus armamentos para dominar as pequenas tribos. Ou ainda mais na evolução dos japoneses que se modernizaram a tal ponto de se transformarem em colonizadores, embora essa não tenha sido uma boa coisa para seus vizinhos. Podendo falar ainda de um componente importante para a evolução do mundo, o petróleo, que por isso causa tanto conflito e medo em todos.

 

CONFLITOS NA AMÉRICA LATINA 

A influência da Europa na América Latina foi tão grande, que já em 1494 o território era dividido entre as coroas espanhola e portuguesa (SOUSA, 2017). A América Latina foram principalmente colônia de exploração para os europeus e suas ações mudaram drasticamente todo e qualquer rumo que os países latinos poderiam ter caso seguissem seu próprio rumo.

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Gravura ilustrando uma das batalhas de invasão espanhola na América Latina. Fonte.

Espanhóis e portugueses dizimaram centenas de milhares de indígenas e acabaram com imensas populações de povos antigos, seja por sua tecnologia mais avançada ou pelas infecções dos vírus que eram comuns aos mesmos, mas mortais aos indígenas (DIAMOND, 1997). Influencia europeia foi sentido até mesmo em guerras que pareciam ser apenas regional, como no caso da Guerra do Paraguai, país era um dos mais ricos entre os latino-americanos e como consequência ficou em frangalhos.

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Batalha Naval do Riachuelo entre Brasil e Paraguai. Fonte.

Especialistas frequentemente apontam a influência inglesa no conflito, concedendo empréstimos e apoiando a entrada da Argentina na tríplice Aliança formada por Brasil, Uruguai e Argentina, contra o Paraguai. Alguns ainda dizem que era interesse do país que o Paraguai não se desenvolvesse pois demonstrava perigo aos interesses ingleses na América do Sul (BETHEL, 1995).

 

Embora o território sul-americano apresente guerra entre países, a questão principal é a colonização, diferente do Norte por exemplo, onde os mexicanos travaram intensas batalhas contra os estadunidenses. A maioria dos conflitos que aconteceram foram internos, relacionados a ideologias e movimentos separatistas, ou representam uma pontada de interesse europeu no continente.

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Frota aérea da Marinha Real Britânica. Fonte.

Um último exemplo disso são as Ilhas Malvinas, um território ao sul da argentina, rico em combustíveis fosseis que se transformou em um campo de batalha entre argentinos e ingleses, que culminou com a vitória dos segundos e até hoje serve de motivo para indisposição entre os dois países (STOCHERO, 2014). Esse acontecimento representa mais uma vez o interesse dos europeus em tirar proveito das suas ex-colônias.

Assim, percebe-se mais uma vez que a tecnologia está intrinsecamente relacionada aos conflitos, embora os mesmos sejam inteiramente de cunho econômico. Se as revoluções tecnológicas não tivessem acontecido, seria inviável para os ingleses tomarem uma ilha no sul da américa, anteriormente, seria impossível para a Tríplice Aliança vencer o Paraguai e ainda mais no passado, seria impossível para os portugueses descobrir o Brasil sem os barcos.

Embora a tecnologia possa aparecer em forma de armas desenvolvidas para o mal, ela pode representar avanço nas necessidades de uma sociedade. No entanto, sem filtro moral e ético algum essas armas podem ser usadas de forma que bem entenderem, e isso é um retrocesso da história humana.

Por Carlos Henrique e Luiza Sousa

NOTAS

[1] É bem parecido com a definição de corrida armamentista, que trabalhamos no post (2 de 3) sobre imprevisibilidade.

[2] Sabe-se que, sendo um dos principais polos da Primeira Grande Guerra, tendo por consequências toda bagunça gerada pelos os colonizadores. Aculturamento, expulsão de pessoas nativas dos territórios, exploração e lucro em cima do território são algumas das coisas que os “colonizadores” implantaram e deixaram. (PIRES; FOGARTY, 2014).

[3] Até mesmo o Japão em 1853. E só aconteceu porque os mesmos se sentiram acuados pela demonstração de força dos Estados Unidos.

REFERÊNCIAS

ARAUJO, Gabriely. Segunda Guerra Mundial: História, causas e consequências. 18/05/2017. Disponível em: <http://www.estudopratico.com.br/segunda-guerra-mundial-historia-causas-e-consequencias/&gt;. Acesso em: 29 jun. 2017.

BETHELL, Leslie. O imperialismo britânico e a Guerra do Paraguai. São Paulo, v. 9, n. 24, p.269-285, Agosto. 1995. Disponível em <http://www.scielo.br/scielo.php?script =sci_arttext&pid=S0103-40141995000200014&lng=en&nrm=iso>. Accesso em 05 Jul. 2017.

BIOGRAPHY.COM, Editors. Genghis Khan: Warrior, Military Leader (c.1162–c. 1227). 27/04/2017. Disponível em:<https://www.biography.com/people/genghis-khan-9308634&gt;. Acesso em: 30 jun. 2017.

BOBBIO, Norberto, MATTEUCCI, Nicola e PASQUINO, Gianfranco. Dicionário de Política. São Paulo: Editora UNB – Imprensa Oficial: 2004

DALL, Nick. When the zulu army gave the british a beating. [S.I]. Ozy. Disponível em: <http://www.ozy.com/flashback/when-the-zulu-army-gave-the-british-a-beating/76307&gt;. Acesso em 07 ago. 2017.

DIAMOND, Jared. Guns, Germs, and Steel: The Fates of Human Societies. W.W. Norton & Company,1997.

HOBSBAWN, Eric. Era dos Extremos: O Breve Século XX (1914-1991). São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

MILITARY DEVELOPMENTS IN THE THIRTY YEARS WAR. The History Learning Site. Reino Unido, 2016. Disponível em: http://www.historylearningsite.co.uk/the-thirty-years-war/military-developments-in-the-thirty-years-war/. Acesso em 12 jul. 2017.

MOITA, Luís. Uma Releitura Crítica Do Consenso Em Torno Do Sistema Vestfaliano. Lisboa, 2012.

PIRES, Ana Paula; FOGARTY, Richard. África e a primeira guerra mundial. Ler História, 66, p. 57-77. 2014.

SOMMA, Isabelle. Japão – O dia em que a ilha se abriu ao mundo. 01/11/2003. Disponível em:<http://origin.guiadoestudante.abril.com.br/aventuras-historia/japao-dia-ilha-se-abriu-ao-mundo-433439.shtml&gt;. Acesso em: 30 jun. 2017.

SOUSA, Rainer Gonçalves. “Tratado de Tordesilhas”; Brasil Escola. Disponível em <http://brasilescola.uol.com.br/historiab/tratado-de-tordesilhas.htm&gt;. Acesso em 05 de julho de 2017.S

TOCHERO, Tahiane. Após 150 anos, estopim da Guerra do Paraguai ainda gera controvérsia. 13/12/2014. Disponível em:<http://g1.globo.com/mundo/noticia/2014/12/apos-150-anos-estopim-da-guerra-do-paraguai-ainda-gera-controversia.html&gt;. Acesso em: 05 jul. 2017.

VAZ, Angela Omati Aguiar. Procurando entender o oriente médio. Revista Don Domênico, [S.l.], p.1-12, jun. 2016. Disponível em: <http://www.faculdadedondomenico.edu. br/revista_don/artigos8edicao/10ed8.pdf>. Acesso em: 05 jul. 2017.

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