A imprevisibilidade e seu peso para deliberações políticas (parte 3 de 3)

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Fonte: Stanford, 100 anos de Inteligência Artificial

Não podemos ignorar a sutileza das questões estratégicas acerca da questão quando temos que compreender o posicionamento dos países. Ao se questionar se tais sistemas estão mais propensos a fazer o bem ou o mal, e a partir disso se posicionar a favor ou contra seu desenvolvimento, as representações devem compreender o que está em jogo. E também, ao debater o tema, é preciso manter em mente que não se trata de uma questão bipolarizada, ou seja, não é possível abraçar ou ignorar completamente tanto os pontos considerados positivos como os negativos. Mesmo em deliberações relativamente simples, algumas considerações estratégicas têm de ser levadas em conta.

No contexto das Relações Internacionais, considerando os Estados como principais atores, por exemplo, pode ser levado em conta que mesmo que o meu Estado não desenvolva tais sistemas, isso não significa que outros Estados deixarão de fazê-lo. Por consequência, existe uma influência maior do que apenas a consideração acerca dos benefícios ou malefícios desse sistema.

Marie Curie (1867-1934) e Robert Oppenheimer (1904-1967), ambos cientistas de destaque na área de física nuclear, mas os frutos de seus trabalhos foram bem diferentes entre si.

A ciência e tecnologia não é algo bom ou ruim em si mesma, elas são o que fazemos com elas. A complexidade de tal questão é superior ao alcance deste texto, contudo, é possível pontuar alguns fatores potencialmente relevantes, apresentados por Nick Bostrom (2007), para direcionar futuras investigações acerca das questões tecnológicas, são eles:

  1. Preconceitos e auto enganação. Em um nível individual, a cognição humana é suscetível a diferentes tendências e a auto enganação. Certos tipos de considerações podem oferecer mais apoio do que outros devido ao preconceito e pensamentos errôneos.
  2. Manipulabilidade. Da mesma forma, em um nível coletivo, na deliberação pública, certos tipos de considerações podem ser mais fáceis de manipular para fins partidários, sugerindo que eles deveriam receber menos peso ou barrar completamente.
  3. Imprevisibilidade. A complexidade de certo nível de consideração estratégica é profunda, de forma que à medida que nos aprofundamos no assunto, podemos nos encontrar em uma densa névoa de desconhecimento.
  4. Consequências diretas ou mediadas. Tal ponto se refere tanto à imprevisibilidade quanto à discussão anterior das considerações estratégicas. Contudo, pode-se manter, como uma questão de ética básica, que não somos responsáveis pelas consequências de nossas ações que são mediadas por muitos fatores externos ou pelas escolhas de outras pessoas, mesmo se elas deveriam ser parcialmente previsíveis.
  5. Acessibilidade para as partes interessadas. Podem ocorrer ocasiões em que algumas partes interessadas não participem de forma significativa nos debates. Isso faz com que as decisões sejam consideradas inúteis?
  6. Restrições morais – honestidade e veracidade incluídas, mas talvez também existam outras restrições morais que se apliquem.
  7. O potencial de progresso acumulado. Pode ser que as discussões possam produzir resultados que sejam mais fáceis de preservar e transferir para futuros diálogos (do próprio comitê) e novas situações, permitindo o progresso cumulativo acerca do tema (como aconteceu no desenrolar dos debates sobre armamentos autônomos).
  8. O potencial de conexão com outras áreas de conhecimento. O trabalho que esclarece alguns tipos de consideração pode ser mais facilmente integrado com os resultados de outras disciplinas ou domínios cognitivos. Isso pode ser um argumento para prestar mais atenção a tais considerações.

Mesmo que possa parecer que já existam muitos quesitos que devam ser levados em conta para a preparação dos debates, o que foi exposto nessa série de postagens é importante na medida em que as decisões que fazemos na vida terá consequências. E apesar de que os debates sejam simulações, este conteúdo não serve somente para o MINIONU, mas também para a vida como cidadãos e futuros profissionais.

Dessa forma encerramos a primeira série de postagens, que foi exposto sobre as revoluções tecnológicas, sua imprevisibilidade e a consequências disto para a vida e para a política. Na próxima série iremos trabalhar com os fatores históricos, mais especificamente sobre os conflitos e sobre como a tecnologia veio acompanhando a história da humanidade.

Nos vemos no próximo post, até mais!

FONTE

BOSTROM, Nick. Technological revolutions: ethics and politics in the dark. In: CAMERON, Nigel M. de S.; MITCHELL, M. Ellen. Nanoscale: issues and perspectives for the nano century. Hoboken: John Wiley & Sons, Inc., 2007. Cap. 10. p. 129-152. Disponível em: <http://www.nickbostrom.com/revolutions.pdf>. Acesso em: 29 mai. 2017.

Por Letícia Laborê e Luiza Sousa

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