Imprevisibilidade, impasses e corridas armamentistas (post 2 de 3)

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Olá, carxs delegadxs!

 

Na postagem anterior começamos a falar sobre as revoluções tecnológicas e as consequências para a sociedade. Agora exploraremos como as revoluções tecnológicas podem ser altamente imprevisíveis, como isso pode criar impasses ao se tratar de criação e normatização de políticas sobre ciência e tecnologia e como podem dar origem às corridas armamentistas.

Criar normas de regulamentação não é um desafio apenas da políticas tecnológicas ou de armamentos, porque qualquer mudança política no geral não pode ser premeditada. Elas irão influenciar no futuro devido à complexidade dos sistemas sociais, algo como um efeito borboleta, onde qualquer coisa que façamos agora pode provocar alterações na história do mundo.

Essas mudanças podem ser complexas como abolição da escravatura, ou relativamente simples como um aumento nos impostos.  Uma redução de impostos para uma determinada área da indústria pode gerar aumento do lucro nesse setor e parte desse lucro pode ser usado para contribuir em campanhas eleitorais, facilitando a eleição de certos legisladores inclinados a trabalhar na aprovação de leis que irão ter ramificações amplas e imprevisíveis. A redução do nível de chumbo em tintas ou políticas que garantam a alimentação infantil podem fazer com que crianças cresçam mais inteligentes, e essas crianças irão se tornar os cientistas que irão criar as futuras revoluções tecnológicas em determinados países. (BOSTROM, 2007) [1].

A imprevisibilidade do futuro da ciência e tecnologia (C&T), no entanto, não deve ser exagerada. A previsibilidade varia de acordo com o que estamos tentado prever. Há algumas coisas que não é necessário grande esforço para prever: parece óbvio que os computadores se tornarão cada vez mais ágeis, os materiais mais resistentes, e existirão mais remédios para a cura de doenças; é fácil também prever a posição de um determinado planeta ou cometa no ano de 2025.

Essa capacidade das Ciências Exatas para prever situações é o equivalente à das Ciências Sociais quando esta estabelece previsões estatísticas sobre o nível de desemprego e pessoas abaixo da linha de pobreza em 2025. Ambas possuem essa capacidade, todavia, ambas têm limitações. Mas isso não torna inútil tentar pois, é através desse esforço que podem ser estabelecidas políticas públicas mais eficientes o possível para lidar com o futuro.

A preparação efetiva para o futuro exige uma previsão precisa de pelo menos certos aspectos do futuro. Mas alguns aspectos são mais difíceis de prever do que outros. Estar preparado para o futuro não requer uma previsão totalmente precisa, mas sim uma base de conhecimento, a capacidade de aprender através da experiência e atenção ao presente. É necessário instituições, como governos federais e organizações internacionais, que sejam adaptáveis e respondam às mudanças em tempo hábil.

A capacidade institucional é importante na medida em que é praticamente impossível prever o desenrolar de pesquisas, pois o projeto pode não se desenvolver como o planejado. Ou algo que pode ser considerado muito pior também pode acontecer: pesquisas podem desenvolver algo que coloque pessoas em risco, como por exemplo a capacidade de impacto da explosão de uma bomba atômica ou o desenvolvimento de algum composto químico tóxico para seres vivos. Contudo, é um risco que humanos escolhem correr, baseados na esperança de que os resultados sejam em sua maioria positivos.

Segundo Bostrom (2007), podemos chegar a algumas conclusões a partir desta breve discussão de previsibilidade:

Primeiro, embora alguns avanços científicos e inovações tecnológicas sejam difíceis de prever com precisão com bastante antecedência, o problema não é exclusivo do contexto científico e tecnológico. Grandes e pequenas decisões políticas, […] têm consequências importantes que não podem ser previstas em detalhes. Em segundo, existem muitos aspectos dos desenvolvimentos científicos e tecnológicos que podem ser previstos. Em terceiro, todos os preparativos significativos para o futuro dependem, explicitamente ou implicitamente, da previsão. Em quarto lugar, a questão da previsibilidade ser relativa para diferentes aspectos do futuro é importante para pensar sobre como as decisões tomadas no âmbito do CCW irão refletir na sociedade.

Considerações estratégicas nas políticas de ciência e tecnologia

Arms race - USA and Russia.Legenda: uma pomba da paz tentando equilibrar-se entre armamentos de dois países. Fonte.

Há um item que torna mais complexo as discussões sobre C&T: estratégica e política. Não há uma agência central internacional com influência o suficiente para, obrigatoriamente, parar pesquisas mesmo que estas se provem danosas para o mundo, nem mesmo a Convenção sobre Certas Armas. O que acontece é que existe uma rede complexa de pessoas organizações políticas e científicas tomando decisões sobre como as pesquisas de C&T serão realizadas e para quais fins.

A situação complica mais quando os ganhos estimados para tais pesquisas são altos e podem ser feito a um custo baixo ou quando a tecnologia desenvolvida pode ser utilizada para uma ampla gama de instrumentos. Ou seja, quanto mais uma tecnologia for útil e quanto mais usos tiver, mais pessoas e organizações irão estar interessadas nela. E quanto maior esse interesse, maior a dificuldade em debater sobre o assunto em fóruns internacionais com o objetivo de criar políticas de regulação, ainda mais porque não há uma instituição com total poder para ditar as ações. (BOSTROM, 2007). É importante levar isso em conta para os estudos do CCW porque a tecnologia utilizada para compor os sistemas de armamentos autônomos é a mesma que a utilizada em diversos outros ramos da indústria e de objetos que utilizamos na nossa própria casa. [2] (STONE apud SOUSA, 2017).

Mesmo no nível nacional, os centros de pesquisa e desenvolvimento de tecnologia possuem diversos níveis de autonomia para agir, com ou sem investimento público. E em nome dos interesses nacionais, talvez nem seja interessante para os governos proíbam todas as pesquisas, considerando que outros países podem desenvolvê-las e, de uma forma ou de outra os resultados chegarão ao mercado e nas forças armadas nacionais.

Isso cria a competitividade entre os Estados e, que por sua vez, pode dar início às corridas armamentistas, ou como aconteceu com a corrida espacial na Guerra Fria. Pessoas responsáveis por tomar decisões de política pública ou mesmo de empresas privadas sabem dos desenvolvimentos em algumas áreas tecnológicas e querem que elas avancem mais rápido possível em seu país ou companhia.

O argumento da competitividade nacional é um dos mais fortes, o argumento de que “se não desenvolvermos essa tecnologia algum outro a desenvolverá, e esse outro pode ser hostil”. Por que os países querem estar sempre na liderança? Porque assim, como é muito mais difícil prever a ação do outro, tornamo-nos um pouco mais seguros ao tentar manipular as discussões sobre armamento para nosso maior benefício. E nessa lógica também faz mais sentido aumentar seu nível tecnológico para ter maior capacidade de proteger-se.

Outro argumento utilizado para atrair investimentos para pesquisas de desenvolvimento é que as pesquisas são um “bem público global e deve ser apoiada por amor da humanidade”. (BOSTROM, 20017, p. ??). No entanto, pode surgir um dilema: ao utilizar o argumento do ‘bem global’ pode gerar oportunidade para que outros países peguem carona e aproveitem os resultados das pesquisas, mesmo que não tenha participado do investimento delas. Desta forma, o primeiro país que pagou pelas pesquisas pode-se voltar internamente e tentar proteger suas pesquisas e as descobertas destas para que não beneficie outras nações.

Como não há uma agência central que dita e regula de forma obrigatória e perfeita os países é necessário o trabalho em conjunto para criar políticas recomendatórias. Esta por sua vez é dificultada pelos jogos de interesses nacionais dos mais diversos. Mas não é uma tarefa impossível e será preciso o esforço dxs senhorxs delegadxs para chegarmos aos melhores resultados possíveis no comitê.

Até a próxima!

Por Ana Luiza Ferreira e Luiza Sousa.

NOTAS:

[1] A colocação do autor não diz respeito especificamente à situação do Brasil nos últimos meses. Essas jogadas políticas são algo comum em muitos países democráticos e não são necessariamente ilegais, visto que há regulamentação para o investimento privado em campanhas eleitorais.

[2] Essa questão também foi trabalhada no nosso Guia de Estudos (página 6) e será mais explorada em postagens futura sobre a tecnologia envolvida.

REFERÊNCIAS

BOSTROM, Nick. Technological revolutions: ethics and politics in the dark. In: CAMERON, Nigel M. de S.; MITCHELL, M. Ellen. Nanoscale: issues and perspectives for the nano century. Hoboken: John Wiley & Sons, Inc., 2007. Cap. 10. p. 129-152. Disponível em: <http://www.nickbostrom.com/revolutions.pdf>. Acesso em: 29 mai. 2017.

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