Revoluções tecnológicas e a imprevisibilidade. (Parte 1 de 3)

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Simulação de geração de previsões por uma máquina de super inteligência artificial. Fonte: Person of Interest.

Introdução

Falar sobre sistemas de armamentos autônomas letais exige uma enorme bagagem de assuntos relacionados a tecnologia, armamentos e direitos humanos. Mas antes de discutir o assunto em si, para esclarecer pontos fundamentais e iniciar uma discussão no campo, devemos contemplar a importância que o desenvolvimento científico e tecnológico tem para as sociedades.

Por isso que nesta série de três postagens iremos abordar as revoluções tecnológicas, a questão da imprevisibilidade que as acompanham e as consequências que podem ter. Nesta postagem trabalharemos a primeira parte de “Revoluções tecnológicas: ética e políticas no escuro” que é um capítulo de uma obra sobre nanotecnologia do filósofo sueco Nick Bostrom, um dos nomes mais importantes no que diz respeito ao desenvolvimento tecnológico. Embora o livro seja sobre nanotecnologia, a premissa é a mesma e diversos pontos são também relevantes para a discussão sobre novos tipos de armamentos e os desdobramentos éticos e político dos mesmos.

As revoluções tecnológicas podem ser definidas como “mudanças dramáticas provocadas relativamente rapidamente pela introdução de algumas novas tecnologias”. (BOSTROM, 2007, p. 1). É fato que elas estão entre as coisas mais importantes que aconteceram na humanidade ao mudar totalmente a forma como o ser humano se enxerga e percebe o ambiente ao redor.

Exemplos de revoluções tecnológicas foram: no período Neolítico das técnicas agrícolas, que também eram empregadas em conflitos armados; a invenção da máquina de impressão tipográfica, que ajudou a espalhar conhecimentos e ideias. No século XX houveram os estudos em física atômica e quântica e as últimas revoluções foram a Internet, desenvolvida durante a Guerra Fria pela Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa (DARPA, sigla em inglês) e os computadores, que nos proporcionou a comunicação global e maior capacidade de processamento de dados. E isso não ocorre de forma instantânea, é fruto de um longo processo de criação e aperfeiçoamento de diversas técnicas e instrumentos.

Como diz Bostrom,

“A mudança tecnológica é, em grande parte, responsável pela evolução de padrões básicos da condição humana, como o tamanho da população mundial, a expectativa de vida, os níveis de educação, os padrões materiais, a natureza do trabalho, a comunicação, os cuidados de saúde, a guerra e os efeitos das atividades humanas no ambiente natural” (BOSTROM, 2007, p. 2).

Dessa forma, fica claro que estudar e entender essas revoluções é uma forma de estudar a própria evolução humana e que estão intrinsecamente relacionadas às condições de vida.

Interesse público sobre ciência e tecnologia (C&T)

Assim se introduz a preocupação pública sobre C&T. Como desenvolvimento tecnológico têm consequências tão profundas, é sábio dedicar esforços para tomar as decisões certas, principalmente no que diz respeito às políticas públicas. Hoje, existem milhares de Centros de Pesquisa de Universidades, pessoas e institutos que investigam e desenvolvem tecnologias, e cresce em todos um sentimento de apreensão com toda a evolução feita pelo homem.

Mesmo que exista uma ampla gama de opiniões sobre o desenvolvimento tecnológico no mundo, há alguns pontos de consenso, pelo menos no ocidente (BOSTROM, 2007, p. 4):
• O desenvolvimento tecnológico terá grandes impactos na sociedade humana;
• Esses desenvolvimentos criarão problemas e oportunidades;
• “Retornar” ao nível tecnológico do passado não é viável nem desejável;
• Existe a necessidade de análise pública dos lados positivo e negativo das novas tecnologias e da exploração de possíveis formas de limitar os danos potenciais (incluindo respostas da indústria tecnológica, políticas regulamentares e educacionais, de forma intergovernamental, internacional, nacional e também no nível local da comunidade).

Hoje, não são apenas as novas armas que são um tópico de preocupação. A inteligência artificial, tecnologia neurológica e segurança da informação já conseguem por si, representar um tópico de grande responsabilidade. A preocupação é ainda maior quanto às evoluções da ciência e tecnologia, ficando explícito que tomamos um caminho que não permite voltar atrás e que isso não é desejado. A tecnologia consegue moldar os homens de tal forma, que é impensável viver sem as facilidades conseguidas, chegando a ser perigoso, como as quedas de energia e de sistema de redes computacionais de hospitais e bancos.

Por fim, Bostrom coloca que governos tentaram uma participação maior da população no desenvolvimento e aprovação de novas tecnologias e suas pesquisas. Isso é importante porque tanto os lados positivos e negativos terão impacto na sociedade. C&T não é mais associada somente ao progresso e é vista hoje de forma mais crítica a partir da corrida nuclear durante a Guerra Fria, o desastre de Chernobyl, produtos transgênicos, preocupações cada vez maiores com o meio-ambiente e políticas públicas de saúde que lidam com consequências de desastres industriais e tecnológicos.

Muitos investimento em pesquisa e desenvolvimento tecnológico não leva em consideração as implicações para a sociedade. Isso é baseado em três crenças. (1) Qualquer resultado causará resultados positivos para a sociedade; (2) empreendimentos de C&T devem ser autônomos na escolha de seu próprio caminho de avanço e inovação; (3) já que não podemos prever o futuro das inovações, também não podemos nos preparar antecipadamente. (BOSTROM, 2007, p. 5).

No entanto, essas crenças podem levar a caminhos menos que ideais para todos e não irão necessariamente se realizar. De fato é muito difícil prever esse futuro, mas a preparação antecipada não requer uma previsão precisa e sim de uma base de possíveis acontecimentos para criar cursos de ações e assim, fundamentar instituições resilientes que possam responder e se adaptar a mudanças em tempo hábil. Um exemplo prático disso são os ramos dos governos que tratam das questões trabalhistas da sociedade, devendo se adaptar às consequências que o desenvolvimento tecnológico trará aos trabalhadores de um país. Trazer a sociedade para as discussões sobre C&T pode resultar na reconstrução da confiança na ciência através do debate democrático.

No entanto, esse processo não é homogêneo nem de longe entre os países. Cada país tem um relacionamento próprio com a tecnologia, sem existir certo ou errado, apenas formas diferentes de viver e encarar o mundo. Existem os donos de tecnologias de ponta e os que vivem como seus ancestrais milenares; existem os que apoiam com toda a força a inovação, os que veem isso de forma mais crítica e alguns até são contra. Existem também aqueles países que têm condições políticas e econômicas para apoiar a ciência em seu território, outros países mal têm condições de garantir os direitos mais básico de sua população, mas que nem por isso devem ser excluídos do processo tecnológico mundial.

Cabe agora aos delegados tomarem consciência da realidade dos países que representarão. Somente desta forma conseguirão entender de fato a posição oficial nas discussões sobre os sistemas de armamentos autônomos letais.

Neste post foi abordado de forma rápida e superficial a importância do desenvolvimento tecnológico para a sociedade. Há dois pontos principais que devem ser mantidos em mente: primeiro, a humanidade só chegou onde está porque revoluções tecnológicas aconteceram. Segundo, hoje basicamente tudo depende de tecnologia, de uma forma ou de outra, e embora isso pareça assustador, é necessário pesquisas e debates a respeito disso. A ciência continuará no seu caminho e trará com esse crescimento questões ainda maiores para todos.

Por Carlos Henrique Vieira e Luiza Sousa.

REFERÊNCIAS

BOSTROM, Nick. Technological revolutions: ethics and politics in the dark. In: CAMERON, Nigel M. de S.; MITCHELL, M. Ellen. Nanoscale: issues and perspectives for the nano century. Hoboken: John Wiley & Sons, Inc., 2007. Cap. 10. p. 129-152. Disponível em: <http://www.nickbostrom.com/revolutions.pdf>. Acesso em: 29 mai. 2017.

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