O desenvolvimento de acordo com a perspectiva do Bem-Viver

Senhores delegados,

Como vimos anteriormente, o conceito de desenvolvimento passa por diversas transformações de acordo com as mudanças sociais e políticas que ocorrem ao longo da história da humanidade. Nesse sentido, vale lembrar que tal conceito pode ser abordado a partir da vertente evolucionista ou crítica. Este post tem como objetivo retomar rapidamente o conceito tradicional e apresentar aos senhores uma das abordagens da vertente crítica sobre o conceito de desenvolvimento. Sendo assim, abordaremos aqui a perspectiva do Bem Viver e as críticas ao modelo dominante.

O conceito tradicional de desenvolvimento, elaborado pela vertente evolucionista é marcado pela dominação dos valores da cultura ocidental sobre os demais povos. Ademais, este modelo é marcado por uma forte lógica capitalista e coloca a modernização e a busca pelo crescimento econômico como os principais pontos nas agendas dos países que desejam se desenvolver (LADEIRA, 2016).

Entretanto, a partir do final da década de 1990, diante da persistência da extrema pobreza e da desigualdade e dos resultados negativos ou pouco significativos dos planos de desenvolvimento dos países que seguiram o modelo capitalista ocidental, o questionamento acerca do conceito tradicional passou a ser mais expressivo. Desse modo, a insuficiência desse modelo para atender às crescentes demandas sociais e ambientais se fez mais clara e as críticas aos valores e às bases do conceito convencional passaram a ser mais contundentes, dando origem a propostas de desenvolvimento alternativos e até mesmo a alternativas de desenvolvimento. Essas últimas promovem uma crítica mais acentuada ao entendimento sobre o conceito tradicional de desenvolvimento e buscam transcender a lógica capitalista de organização social (GUDYNAS; ACOSTA, 2012).

Nesse cenário, dentre as formas alternativas de desenvolvimento, surgiu a perspectiva do Bem Viver. O termo deriva da expressão quéchua Sumak Kawsay que se refere a uma ética de vida muito utilizada por comunidades indígenas da América Latina durante muitos séculos. Tal expressão carrega consigo a noção de harmonia que deve ser implementada tanto no nível individual quanto no comunitário. Ademais, essa ética de vida leva em consideração também a cosmovisão dos povos andinos, ou seja, a maneira como os povos indígenas da América Latina entendem o mundo e o papel exercido pelos indivíduos.Podemos classificá-lo como um conceito plural e ainda em construção que retoma saberes indígenas e os articulam com conhecimentos modernos, objetivando a criação de um diálogo não hierárquico e a reformulação das bases do entendimento que temos acerca do desenvolvimento (GUDYNAS; ACOSTA, 2012).

Em outras palavras, o Bem Viver busca romper com a lógica capitalista de organização social e modo de vida e promover uma alternativa ao modelo de desenvolvimento clássico, buscando maior abrangência, inclusividade e sensibilidade com a natureza e os povos indígenas, além de incentivar uma nova concepção de vida boa e a formulação de novas visões que vão alterar a maneira como o homem se organiza socialmente (LADEIRA, 2016).

Portanto, para tal, o Bem Viver pressupõe a substituição dos valores hoje predominantes nas sociedades – tais como egoísmo e competição – por valores como solidariedade, harmonia e coletividade, além de incentivar os consensos, a valorização da natureza, a responsabilidade social e o sistema de propriedade coletiva. Sendo assim, pretende introduzir a noção comunitária na sociedade, transformando a lógica individual em comunitária. Nesse sentido, o sistema internacional deve ser marcado por relações de cooperação entre os Estados e tanto a política como a economia devem ser reformuladas (LADEIRA, 2016).

Segundo o Bem Viver,  a economia seria organizada de acordo com as necessidades populares e não de acordo com a acumulação de capitais, o que pressupõe a organização não hierárquica e a gestão popular e democrática dos recurso gerados. Nesse sentido, o Estado seria responsável por promover o processo de transição de uma economia de acúmulo de capital para uma economia comunitária e redistribuir de forma justa o excedente produzido. No campo político, o Estado deve ser o ator responsável por garantir as mudanças sociais, ou seja, deve adotar políticas que atendam e realizem a manutenção dos valores do Bem Viver (LADEIRA, 2016). Isso foi feito recentemente pelos governos do Equador e da Bolívia que incluíram princípios do Bem Viver em suas novas constituições, aprovadas, em 2008 e 2009 respectivamente (GUDYNAS; ACOSTA, 2012).

Por fim, cabe salientar que as propostas do Bem Viver foram formuladas principalmente a partir da observação de que o modelo de desenvolvimento tradicional é dominador e limitado. O caráter dominador é explicado pela ideia de desenvolvimento enquanto modernização que deveria seguir os moldes dos países europeus. Segundo o Bem Viver, não deve haver hierarquia nem dominação cultural para que todas as culturas sejam assimiladas de acordo com o contexto em que se situam. O caráter limitado se dá devido à relação entre crescimento econômico e desenvolvimento que se atribui no modelo atual. De acordo com o Bem Viver, essa relação é equivocada, porque a ideia de bem estar deve ser associada à harmonia e não ao acúmulo de capital, já que este nem sempre melhora as condições sociais e ambientais das populações. Ademais, essa vertente critica o racionalismo exacerbado defendido pelo capitalismo, pois acredita que ele é um dos instrumentos de manipulação e dominação utilizado  (LADEIRA, 2016).

Sendo assim, essa perspectiva defende que o desenvolvimento capitalista não é a única opção para a evolução humana. Nesse sentido, transcender da lógica do viver melhor para a lógica do viver bem também é evoluir. A lógica capitalista busca viver melhor, pregando o consumo, a busca por dinheiro, poder e fama cada vez maior através da exploração da natureza. É voltada para o futuro e se baseia na lógica do cálculo custo-benefício. Em contraposição, o viver bem busca a harmonia e a vida em comunidade, considerando que a condição de todos é importante e portanto, não há como viver bem se os outros estão vivendo mal. Essa lógica é orientada pela solidariedade, cooperação e se volta para a vida em comunidade (LADEIRA, 2016).

A partir disso, é possível inferir que a noção de desenvolvimento trazida pelo Bem Viver é mais flexível, multicultural e heterogênea do que a abordagem tradicional, pois inclui outras variáveis (além do crescimento econômico e modernização) ao conceito de desenvolvimento. Sendo assim, o Bem Viver se atenta às particularidades e necessidades de cada sociedade, refutando a ideia de um único caminho a ser seguido e desconstruindo a dominação ocidental sobre outros povos (GUDYNAS; ACOSTA, 2012).

Nesse sentido, podemos depreender que a perspectiva do Bem Viver confere maior autonomia aos Estados para que esses façam suas tomadas de decisão de acordo com suas próprias necessidades, capacidades e interesses. Portanto, essa abordagem se mostra como uma das opções a serem seguidas pelos países do Sul que desejam se desenvolver por meio de outros mecanismo que não aqueles da cooperação tradicional realizada aos moldes da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) (MAWDSLEY, 2012).

Ademais, contemplar a vasta gama de abordagens sobre o conceito de desenvolvimento nos alerta para o fato de que diferentes entendimentos sobre o mesmo podem implicar em diferentes ações práticas e consequências políticas. Nesse sentido, discutir sobre tais divergências se torna fundamental para que os países possam escolher o melhor caminho de acordo com seus anseios e particularidades. É em torno dessas discussões que desenvolveremos a dinâmica do nosso comitê, portanto fiquem atentos ao nosso blog e acompanhem as postagens para que possamos fazer um ótimo debate!

 

 

Referências Bibliográficas

GUDYNAS, Eduardo; ACOSTA, Alberto. A renovação da crítica ao desenvolvimento e o Bem Viver como alternativa. Journal of Substainability Education. Disponível em: <http://www.ihu.unisinos.br/507956-a-renovacao-da-critica-ao-desenvolvimento-e-o-bem-viver-como-alternativa>. Acesso em: 20 jun. 2017.

LADEIRA, André de Sousa. A oposição ao conceito clássico de desenvolvimento sob a perspectiva do bem viver. Revista Fronteira. Belo Horizonte, v.15, n. 29 e 30, p. 49 – 68, 2016.

MAWDSLEY, Emma. From recipients to donors: emerging powers and the changing development landscape (versão Kindle). London: Zed books, 2012MILANI, Carlos R.S. et al. Atlas de Política Externa Brasileira. Rio de Janeiro : EDUerj, 2014

 

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