Os principais pontos da discussão acerca do desenvolvimento

Senhores Delegados,

Nesse post apresentaremos para os senhores os principais pontos da discussão acerca do desenvolvimento. Essa discussão gira em torno, principalmente, de duas vertentes: a evolucionista e a crítica, sendo essa última composta por diferentes abordagens. Nesse post, discutiremos principalmente a evolucionista e as críticas à essa e, nos próximos, estudaremos as diferentes abordagens da vertente crítica com maiores detalhes!

A mudança social a partir da perspectiva evolucionista é vista como uma transição entre uma sociedade tradicional, “atrasada”, para uma sociedade moderna, “desenvolvida” e “civilizada”. A partir da Revolução Industrial existe essa ideia de que o progresso da humanidade ocorreria através da passagem de uma condição inicial de penúria cultural e ignorância para uma de “civilização”. De acordo com essa perspectiva, haveria um “trajeto único” para o desenvolvimento e os meios para alcançar esse desenvolvimento seriam os mesmos para todos. Essa perspectiva acerca da mudança social pode ser relacionada diretamente com a perspectiva dominante sobre o desenvolvimento (SZTOMPKA, 1998).

A concepção tradicional acerca do desenvolvimento se baseia nessa lógica desde o período da Guerra Fria – que teve como sua maior evidência o discurso de Truman. Nessa perspectiva, desenvolver seria passar da sociedade tradicional para  a sociedade moderna em todos os aspectos do sistema social – econômico, político e social – e não em apenas um deles, como as vertentes que consideram desenvolvimento como “crescimento econômico”. Ou seja, desenvolver seria sair de uma economia baseada na agricultura para uma capitalista industrial, de sociedades patriarcais para sociedades de classes baseadas nas relações capitalistas, de um regime político não democrático para a consolidação da democracia liberal.  Desse modo, equivale-se as sociedades tradicionais aos países subdesenvolvidos e as sociedades modernas os países desenvolvidos (SANTOS FILHO, 2005).

Essa identificação da sociedade capitalista ocidental como modelo de desenvolvimento a ser alcançado se tornou ainda mais evidente com o fim do socialismo e a consequente supremacia do capitalismo e da democracia liberal. Nesse contexto, o desenvolvimento passa a ser ainda mais sinônimo de consolidação do mercado capitalista e  da democracia liberal (SANTOS FILHO, 2005).

Nessa concepção do mainstream pós 2ª Guerra Mundial, as Organizações Internacionais passam a ter o papel principal de difundir as ideias sobre o desenvolvimento . Assim, as OI’s agem como instâncias socializadoras dos Estados nas questões de desenvolvimento, contribuindo para o entendimento de seus conceitos e recomendando determinadas práticas. Desse modo, elas promovem a difusão de um dado modelo de desenvolvimento – o “moderno ocidental” – e auxiliam na transferência de recursos técnicos (SANTOS FILHO, 2005; COX, 1993).

Esse papel das OI’s se torna claro quando analisamos a forma que a Cooperação para o Desenvolvimento tradicional é realizada. É possível afirmar que o entendimento dominante hoje acerca do desenvolvimento e da cooperação para o desenvolvimento é baseado nas definições sobre Assistência Oficial ao Desenvolvimento (AOD) da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Esse modelo de cooperação tradicional, conhecido por Norte-Sul, ocorre de forma que um país do Norte capitalista, desenvolvido, é o doador, e o país do Sul, subdesenvolvido/em desenvolvimento, é o receptor (MAWDSLEY, 2012; LOPES, 2015).

Essa concepção de desenvolvimento está de acordo com o que foi explicado acerca da teoria evolucionista. Ou seja, nessa perspectiva, desenvolver seria se tornar uma sociedade capitalista aos moldes da ocidental. Além disso, estima-se que para alcançar o desenvolvimento seria necessário apenas adotar as mesmas medidas que os países ocidentais adotaram para se desenvolver, como uma “receita de bolo”, em um “caminho único para o desenvolvimento”. Assim, esse modelo de desenvolvimento atribui o subdesenvolvimento ao “atraso das sociedades tradicionais/não capitalistas” e não às desigualdades inerentes ao sistema (MAWDSLEY, 2012).

Sztompka apresenta também as principais críticas às teorias evolucionistas de mudança social. De acordo com eles, essas seriam: a) não há uma lógica única/padrão histórico global, mas sim contigência e aleatoriedade; b) não é um processo único, existe uma infinidade de processos paralelos, independentes, sobrepostos; c) a evolução não é unilinear, há uma pluralidade e heterogeneidade das populações, assim, algumas sociedades não ocidentais deveriam ser vistas apenas como diferentes e não atrasadas; d) há uma crença etnocêntrica no valor definitivo dos modos de vida e instituições ocidentais; e) defendem uma visão horizontal, em que o que vem depois é apenas diferente mas não necessariamente melhor do que havia antes, como defendido pela visão vertical dos evolucionistas; f) existem processos de difusão a partir dos quais estágios podem ser omitidos ou acelerados por experiência ou mesmo intromissão direta (SZTOMPKA, 1998).

Essas críticas apresentadas por Sztompka também estão diretamente relacionadas com aquelas realizadas ao modelo de cooperação para o desenvolvimento tradicional por movimentos dos países do Sul, como a Cooperação Sul-Sul e as outras formas emergentes de cooperação não tradicional. Em primeiro lugar, a crítica acerca dos processos de difusão por intromissão direta pode ser exemplificada pelos casos de exigências de condicionalidades vinculadas aos pacotes de assitência financeira existentes dentro da cooperação tradicional (MAWDSLEY, 2012).

Além disso, ao colocar que há único caminho para o desenvolvimento e que suas recomendações são verdades universais e neutras, os mecanismos de cooperação tradicional acabam por ignorar os aspectos ideológicos do conceito de desenvolvimento e colocam qualquer resistência à adesão das condicionalidades como descado ou falta de esforço, negligenciando outras visões e interesses acerca do desenvolvimento (MAWDSLEY, 2012).

Ademais, ao classificarem “boas políticas”, “boas instituições” e “boa governança” (como a democracia, forte proteção dos direitos de propriedade privada e uma governança empresarial transparente orientada para o mercado), as Organizações Internacionais estariam, na verdade, legitimando o neoliberalismo. Essas instituições, de acordo com o paradigma dominante, permitiriam o desenvolvimento dos outros, já que elas foram as responsáveis pelo seus próprios desenvolvimentos. Porém, discute-se se essas políticas seriam adequadas para os países em desenvolvimento, já que há uma pluralidade de sociedades e nem todas se tornarão – e nem mesmo almejam se tornar –  “ocidentais” (CHANG, 2002).

Nesse sentido, é importante discutirmos os diferentes conceitos e abordagens acerca do desenvolvimento e, principalmente, no que tange à cooperação para o desenvolvimento, a autonomia dos países de definirem seus próprios caminhos, prioridades e objetivos nesse processo. Essa será a discussão central do nosso comitê, levando em conta o papel que as Organizações Internacionais têm na difusão do entendimento acerca do desenvolvimento e na promoção da cooperação para o desenvolvimento. Essa discussão se tornou ainda mais relevante com a intensificação da Cooperação Sul-Sul no século XXI, principalmente a partir dos países emergentes, como o BRICS (Brasil, Rússia, India, China e Africa do Sul), e do estabelecimento novas alianças entre os países em desenvolvimento e subdesenvolvidos demandando maior autonomia, conforme será discutido nas próximas postagens do blog! Acompanhe nosso blog para se informar mais sobre as diferentes abordagens sobre desenvolvimento, bem como as divergências entre duas principais formas de cooperação para o desenvolvimento (Norte-Sul e Sul-Sul) e o processo de questionamento da ordem mundial a partir do fenômeno dos países emergentes!

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CHANG, Han Joon. Kicking Away the Ladder: Development Strategy in Historical Perspective. London: Anthem, 2002

COX, Robert W. Gramsci, materialismo histórico e relações internacionais: um ensaio sobre o método. In: GILL, Stephen (Org.): Gramsci, materialismo histórico e relações internacionais. Rio de Janeiro: UFRJ, 1993.

LOPES, Barbara Ferreira. China’s Oil Diplomacy In Africa: Uma análise sobre a atuação das estatais petrolíferas chinesas em Angola e Nigéria. 2015,157f. Dissertação (Mestrado) – Programa de Pós Graduação em Relações Internacionais, Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2015

MAWDSLEY, Emma. From recipients to donors: emerging powers and the changing development landscape (versão Kindle). London: Zed books, 2012MILANI, Carlos R.S. et al. Atlas de Política Externa Brasileira. Rio de Janeiro : EDUerj, 2014

SANTOS-FILHO, Onofre. O Fogo de Prometeu nas mãos de Midas: desenvolvimento e  mudança social In: LAS CASAS CAMPOS, Taiane (Org.). Desenvolvimento, desigualdades e relações Internacionais. Belo Horizonte: Ed. PUC Minas, 2005. p. 13-75

SZTOMPKA, Piotr. A Sociologia da Mudança Social. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998, caps. VII, X e XI.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s